Triste saber
TRiste saber que o Gerald declarou que enterrou o seu teatro. Nunca vou me esquecer da primeira impressão poderosa que tive em um espetáculo, ao assistir Metamorfose, parte da Trilogia Kafka. Aquilo, naquele momento, era demais para o Brasil. Nós não estávamos habituados a ver tanto poder nas imagens, na teatralidade...a recusa sistemática a personagens concebidos de forma tradicional...aquilo era o tão famoso pós-dramático realizado de forma poderosa em solo brasileiro. A luz através da fumaça, Wagner ao fundo, as siluetas dos atores pelo espaço, aquelas interpretações expressionistas, tudo aquilo me tirou das minhas certezas e me jogou no caos. Uma epifania onde as palavras contavam muito pouco. Gerald foi uma influência decisiva nas minhas opções teatrais. Zé Celso foi outra, por outros motivos. A sua declaração de afastamento do teatro é triste e causa um buraco, um vazio. Espero que seja apenas mais uma declaração bombástica do diretor bombástico e que ele volte com força aos palcos. O teatro precisa dele...muito mais do que imaginamos.
Escrito por Rodolfo às 20h01
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Apostas
Aposto que o reitor da UNIBAN é um taradão. E que a Geisy é mais careta do que parece. Aposto que a Uniban é igual a todas as outras universidades. Os tempos são outros ou vivemos numa década de 1950 com internet e celular?
Escrito por Rodolfo às 12h37
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Hoje vesti uma camisa...
Hoje vesti uma camisa. E senti a sua presença intensa.
Escrito por Rodolfo às 23h47
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O Muro de Berlim
20 anos de queda do Muro de Berlim. Praticamente todo mundo já sabe disso. Só falta avisar algumas pessoas do teatro brasileiro.
Escrito por Rodolfo às 23h45
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A inveja de muitos
Uma velha senhora chora copiosamente pela morte de seu companheiro da vida inteira. Abraçada às suas roupas, olhando e beijando suas fotos, a ela não lhe resta muito além de chorar. E sente-se miserável Mal imagina ela que é observada por alguém que só consegue ter inveja de suas lágrimas. Esse alguém daria tudo para poder chorar a falta do amor intenso de uma vida inteira. Chorar a morte de alguém que se ama é um privilégio para poucos.
Escrito por Rodolfo às 23h43
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Os ateus também votam
Eu jamais votaria para presidente em um (a) candidato (a) evangélico (a) fervoroso (a). Pelo simples fato de que, se ele (ou ela) vencesse, o Brasil ficaria anos atrasado em relação ao resto do mundo em pesquisas de engenharia genética, em direitos humanos, em respeito às diferenças... Por mais ecológico (a) ou caboclo (a) que fosse o candidato (a), como diria Caetano, ele (ela) não poderia receber meu voto.
Escrito por Rodolfo às 23h40
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Mais uma vez: Os Satyros perdem o Fomento
NOtícia requentada: pela quarta vez seguida, Os Satyros perdem o Fomento. O que isso significa exatamente? Que não temos um projeto contínuo? Que não temos um trabalho sério? Que não somos artistas verdadeiros? Que incomodamos muita gente? Que não somos unanimidade numa classe que deveria privilegiar a diferença? Que não pensamos como os outros querem que a gente pense? Que não usamos os termos da moda "teatral" que querem nos obrigar a usar? Que temos uma travesti de 70 anos no elenco e isso não é de bom tom? Neste momento, somos outsiders do teatro. Totalmente discriminados. Mas nem por isso vamos deixar de escrever a nossa história. E na nossa história, vai estar escrito: durante dois anos o Fomento nos recusou e mesmo assim, fizemos muita coisa. Nesses dois anos sem Fomento, estreamos 4 espetáculos novos, nos apresentamos em dois países latinoamericanos, ganhamos um prêmio internacional, fomos indicados ao Prêmio Shell, nos apresentamos em mais de quarenta cidades pelo Brasil, fizemos uma Satyrianas com mais de 30 mil pessoas, criamos uma minissérie para a TV Cultura/SESC, demos espaço para mais de 40 produções estrearem nos nossos espaços, e finalmente completamos 20 anos de (r)existência. Na nossa história, vai estar escrito que fomos discriminados. Viva o Totalitarismo disfarçado de comissão democrática!
Escrito por Rodolfo às 17h15
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SONHO DE UM ATEU
Sonho de um ateu: o craque marca o gol, geral vibra, ele levanta a camiseta, por baixo outra dizendo "Não foi Deus quem marcou esse gol!"
Escrito por Rodolfo às 11h30
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Voltando à matéria da Folha
A matéria da Folha do domingo passado sugere uma série de temas interessantes. O repórter me procurou com uma tese já clara na sua cabeça: "A Praça já não é mais do teatro, mas da balada." Ele mesmo me disse isso no início da entrevista. Achei estranho o tema, pois não havia uma confirmação estatística, era apenas uma sensação, uma percepção do jornalista de que a praça não era mais de gente do teatro. Outras pessoas também tem a mesma sensação! - ele argumentou. Com certeza a pauta já estava aprovada e ela deveria ser feita. Independente das minhas declarações ou de qualquer outra pessoa. Independente dos fatos que nós pudéssemos elencar. Independente de outras verdades que pudessem surgir. O jornalismo já tinha a sua verdade, aprovada em reunião de pauta, e estávamos ali para exercer o livre direito de falar o que eles queriam ouvir. Na entrevista, as perguntas eram elaboradas com essa finalidade. Os argumentos, os outros lados dessa história, nada interessava. O fato, segundo os olhos do jornalista, era incontestável, a pauta já estava definida e ele apenas recolheria frases minhas que corroborassem a sua tese. A isso, o bom jornalismo chama de "editar". A entrevista já estava pronta e ele só precisava de algumas escorregadelas minhas para poder usá-las na ratificação da sua verdade. Depois, a matéria propriamente dita. Ele entrevistou outras pessoas da Praça que também escorregaram (algumas até pode ser que pensassem aquilo mesmo, mas com certeza alguns caíram no engano) e corroboraram a sua verdade. Não interessava a ele valorizar opinões discordantes, e que não eram poucas. A verdade programada foi escrita como havia sido planejado! Viva a verdade! A edição de domingo já pode ir para as bancas e todos podemos dormir tranquilos. A pauta foi cumprida! E surgiu o preconceito claro e explícito, digno de outros jornalismos que temos por esse país afora. "Botequeiros" foi a palavra usada. Que palavra é essa? O que ela implica? Que tipo de matéria de capa de um jornal de cultura vai dar um destaque desses a uma matéria sobre "botequeiros"? Os velhos preconceitos seculares voltam, sob um novo manto. Aqueles preconceitos que surgiram na Idade Média e nunca mais abandonaram o teatro ocidental. Aqueles que levaram a enterrar Molière longe do solo sagrado de um cemitério. Ou que obrigavam, não faz muito tempo, as atrizes brasileiras a usarem a carteira de identidade vermelha, aquela que identificava as putas. Os preconceitos usam de novas carcaças e surgem sob novas disfarces. Antigamente, os atores eram bichas e as atrizes eram putas. Agora, os frequentadores da Roosevelt (atores ou público, tanto faz) são botequeiros. Nunca, na Folha de São Paulo, se disse que na Vila Madalena existiam botequeiros!!! Nunca!!! Lá, na cool Vila Madalena, bairro onde moram muitos jornalistas endinheirados inclusive, as pessoas (entre os quais esses jornalistas) são chamados de "frequentadoras dos bares da Vila Madalena". Isso ocorre em qualquer caderno da Folha de São Paulo, no Cidades, no caderno especial de Bares, nas matérias da Revista da Folha. Por que então justamente os frequentadores da Roosevelt são botequeiros? Por que não são tão ricos e chics? Por que não frequentaram o Colégio Santa Cruz? Por que não costumam passar férias na Europa? Por que usar de outro nome se não for para depreciar as pessoas que frequentam a Praça e dar um toque levemente escandaloso à verdade que eles decidiram divulgar? Se isso não se chama preconceito, não sei o que poderia ser. E finalmente, uma reação estranhamente poderosa. A reação das pessoas da Roosevelt. Eles formam uma comunidade, de verdade. Todos torcem pela Praça e tem orgulho das matérias que saem sobre ela. E eu tenho orgulho de dizer que as matérias que saem sobre a Praça não são só do teatro, mas de toda uma comunidade. É isso que faz deste fenômeno algo tão especial e maravilhoso. Somos muitos e diversos, múltiplos em suas experiências de vida e expectativas. Mas essa matéria provocou um outro tipo de reação nesta comunidade. Hoje, numa mesa do La Barca, vi uma cena de conspiração, algumas pessoas sentadas falando baixinho quando eu me aproximei. Eles reliam a matéria e discutiam com a Isabel, garçonete do La Barca, o que havia saído na imprensa. Estavam ali o Chagas, ator; a Angela, artista plástica; a Suzana, síndica do prédio e revendedora da Avon e a garçonete sensação, Isabel, a balzaca mais fogosa da praça. A indignação deles tinha um quê de patética graça, como se fossem um pequeno exército de Brancaleone tentando afrontar o maior dos dragões. Eles não se conformavam com a classificação de "Vila Madalena de segunda". Ninguém por aqui mudou, nem a Isabel, nem a síndica, nem o Chagas, nem a artista plástica Angela...todos continuamos a fazer o mesmo que andamos fazendo nestes últimos anos: queremos nos divertir, fazer teatro, criar espaços maiores para a comunidade dos artistas e dos loucos. E se somos chamados de botequeiros, nós e aqueles que se aproximam de nós, isso não nos impede de seguir adiante. Mas parece que o que fazemos incomoda muita gente. Porisso a matéria da Folha também é conveniente para aqueles que querem desmerecer a nossa arte e nossos objetivos. Aqueles que acreditam que o teatro só pode existir dentro de uma sala tradicional, com ingressos tradicionais, e depois do espetáculo de duração justa, que cada um volte para sua casa, sozinho e anônimo. Os crentes do bom teatro desprezam um teatro como o nosso, que busca ardentemente o encontro, antes, durante e depois do espetáculo, como forma de sobrevivência estética e pessoal. Eles abominam tudo que possa acontecer fora dos noventa minutos combinados dentro de uma sala de espetáculo. Eles odeiam o nosso trabalho com todas as suas forças. Porisso a frase revolucionária: "Botequeiros do mundo, uni-vos!"
Escrito por Rodolfo às 11h59
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Esqueceram do mais importante
Matérias de jornal dizem que a minissérie Som e Fúria, apesar de ótima, não tem dado um bom retorno de audiência. Importaram uma companhia de teatro que não existe no Brasil. Importaram um roteiro que fala dessa companhia importada. Importaram equipamentos de última geração para rodar a série. Só se esqueceram de importar o povo certo para assisti-la!
Escrito por Rodolfo às 14h09
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Novo Manifesto para o Século XXI
Vendo a matéria da Folha de São Paulo no último domingo, não nos resta nada além da manifestação que já se faz tardia: Botequeiros do mundo, uni-vos!
Escrito por Rodolfo às 14h06
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O Comum
Negri e Hardt debatem a nova categoria do estar-no-mundo: o comum. O comum não é nem o público nem o privado. O público de fato pertence ao governo, à instituição tão distante de nós. O privado pertence ao foro íntimo, que não se deve ou se quer repartir com o outro. O comum é aquilo que eu e você criamos juntos, um espaço de comunicação, de criação de significados, de redimensionamento dos ideais políticos, de expressão. O comum é criado pelos anônimos que não conseguem se expressar pelos canais convencionais do público, tão distantes, mas que se sentem de alguma forma unidos. A Praça Roosevelt é exemplo desse espaço comum, construído por todos nós, cheia de significados que vão além dos símbolos reproduzidos e vendidos pela indústria cultural. Comum a todas as pessoas da cultura, do teatro, da reflexão crítica. A Satyrianas é esse tempo-espaço comum, onde criamos e expressamos para além dos clichês que constroem nossa visão de mundo, onde suspendemos as categorias tradicionais em que o Império nos equaliza e buscamos a revitalização dos nossos caminhos na arte. Nós, no Satyros, lutamos por uma arte comum...por uma arte que construa essa multidão com identidade e desejos próprios, carnalmente constituída. Essa arte comum só é possível no âmbito da troca, da presença, do corpo. Corpo cheio de significados novos e prontos para se expressar no mundo esteticamente, em uma forma nova, que só é possível no aqui-agora.
Escrito por Rodolfo às 18h59
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Irã, twitter, muçulmanos e preconceitos...
Pensando no Irã: a primeira revolução twittada do planeta acontece num país muçulmano...chega de estereótipos! Quando conheci palestinos num projeto que dirigi, ficou claro prá mim: a imprensa ocidental alimenta estereótipos. As tvs só mostram homens barbudos radicais e mulheres cobertas de mil véus lamentando a morte de seus filhos. O Islam é muito mais do que isso...Eles têm uma cultura milenar, uma sabedoria própria e milhares de diferenças entre eles e milhares de problemas. Não...não significa aprovar o que os seus regimes fazem com as mulheres nem com os homossexuais. Nâo significa calar diante dos ataques suicidas. Mas entender que eles são muito mais complexos do que as imagens que vemos, que as sociedades islâmicas são cheias de sutilezas e de pessoas inteligentes e sensíveis também. E o mundo agora vê, pasmo, os muçulmanos iranianos twitando, se organizando virtualmente, propondo revoltas públicas... O tempo é de mudança também para eles... E a Revolução Chinesa? Também virá do twitter?
Escrito por Rodolfo às 13h05
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O teatro e a democracia fedem...
- Os conceitos de democracia e de teatro surgem como contemporâneos não por acaso. A Grécia antiga em seus festivais de teatro reunia famílias de todas as classes, que faziam lindos pic-nics enquanto assistiam aos espetáculos a céu aberto... - Paroni fala lindamente sobre: os analfabetos espectadores do Globe Theatre influem mais na estéttica de Shakespeare do que muitos acadêmicos gostariam. O Globe era o local dos populares, dos bêbados de cerveja, dos animais...de todos.. - No tempo das realidades virtuais, da internet, das comunicações globais, os humanos anônimos precisam de fisicalidade novamente, recuperar a tribo...o teatro, drama primitivo, é absolutamente necessário e urgente. O teatro e seu fedor.... -
Escrito por Rodolfo às 13h13
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Pesquisas comprovam: a democracia fede...
Alguma dessas universidades americanas fez pesquisas para avaliar a relação entre odores e conservadorismo. Chegou à conclusão, depois de testar muita gente, que pessoas que tinham uma aversão muito grande a cheiros exóticos e corporais (urina, fezes, suores, etc), eram na grande maioria conservadores em suas posições políticas. Tem sentido: a democracia fede. Ela sempre traz a diferença, o outro e seus cheiros. Ser um democrata significa estar disponível para experimentar o suor dos outros, os fedores, os aromas desagradáveis da vida real. Exemplos: a Alemanha nazista não cheirava a nada. Os desfiles nazistas, registrados por Leni Riefehnstal deixam isso evidente. Naquelas imagens os corpos de homens e mulheres negavam a sua própria condição animal e eram alçados a ídolos de carne. Tudo era higienicamente controlado naquele mundo que lutava pela perfeição das suas formas. Até as câmaras de gás eram pensadas como uma forma limpa de extermínio. Uma contradição brutal. Tenho medo também do teatro higiênico demais. O teatro muito limpo, muito exato, muito controlado, muito perfeito em suas formas e objetivos. Esse tipo de teatro transpira um suor asséptico, distante, quase ideal. O teatro dos Satyros tenta, o tempo todo, dialogar com a rua, com seus cheiros, com suas mazelas fedorentas. E tudo isso é carregado para o palco. Através de atores nem sempre tecnicamente perfeitos, muitos que nunca estudaram em uma escola de teatro regular. Mas que trazem em seus corpos experiências de vida contundentes e fedidas...perfeitas na sua imperfeição.
Escrito por Rodolfo às 15h11
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