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TEATRO EXPANDIDO (AUGMENTED THEATER) - Rodolfo García Vázquez
 


Para a revista virtual Mais Cultura

O teatro provocador de Rodolfo García Vázquez

+ Especial

Por: Redação

Foto: Divulgação - Prêmio Shell

 

Rodolfo García Vázquez é um dos artistas mais atuantes no cenário cultural brasileiro. Diretor de encenações polêmicas como A Filosofia na Alcova, Os 120 Dias de Sodoma e Justine, o vencedor do 23° Prêmio Shell SP de Teatro, fala de sua trajetória, seus anseios e medos. Na entrevista especial, concedida para a Mais Revista Cultura, Rodolfo dispara: “Acho que falta uma política federal mais ampla para a cultura, que não se apoie em uma estratégia equivocada como a Lei Rouanet”. Em outros momentos admite: “o tema da normalidade e da loucura percorre grande parte das minhas preocupações nos espetáculos dos quais participo”. Fundador de uma das companhias mais importantes dos últimos quinze anos, Os Satyros, acredita no poder transformador das artes cênicas. E acredita também em um teatro provocador e deslocador. A seguir, você pode acompanhar os principais momentos da entrevista com o diretor Rodolfo García Vázquez.

Rodolfo, de onde vem esta força avassaladora, esta motivação sagaz que leva você a viver profundamente o teatro dia a dia?

Obrigado pelo elogio. Nem sei se essa força é tão avassaladora assim. Sinceramente, não sei responder a essa pergunta. Não acredito que eu tenha muita opção em ser como sou. Faço as minhas escolhas, na medida do possível, mas sempre há algo que é intangível na forma que vivemos a vida, aquilo a que os gregos chamavam destino.

Quando o teatro aparece em sua vida? Foi na infância?

Tive experiências com teatro na escola pública onde estudei (participei da peça Morte e Vida Severina) e também quando estudava inglês na Cultura Inglesa. Mas de forma mais séria, o teatro só vai aparecer depois, após formado na Faculdade, quando já trabalhava em uma multinacional, aos 23 anos. Fui fazer um curso de mímica de uma semana, como passatempo, e resolvi brincar de fazer teatro. Dois anos depois, pedi demissão e nunca mais voltei para a carreira das pessoas que usam terno e gravata.

Como surgiu a Cia. Os Satyros? Quais eram os seus sonhos naquele período?

Eu tinha saído da Escola Teatro Macunaíma e já tinha um ano de experiência com um grupo amador, chamado Ava Gardner. Havia dirigido um espetáculo e estávamos preparando o segundo, baseado na vida do dramaturgo Qorpo Santo. Fizemos um processo seletivo e o Ivam Cabral se apresentou para fazer o teste. Ele tinha chegado em São Paulo fazia uma semana e não conhecia ninguém. Fez o teste e foi aprovado. Nesse momento, começou nossa amizade e percebemos que entendíamos o teatro da mesma forma. Resolvemos montar um grupo e escolhemos o nome depois de pesquisar muito. Isso foi em maio de 1989. Pensávamos em fazer um teatro que expressasse as nossas ideias, que fosse provocador e deslocador. Éramos ilustres desconhecidos, jovens e sonhadores, começando a criar uma história.

A história dos Satyros é marcada por sua parceria artística com Ivan Cabral?

Não se pode falar em Satyros sem falar dessa parceria, pois tudo é muito discutido entre nós e na relação com as pessoas que formam o grupo. Atualmente, o grupo é formado por artistas fantásticos que tem entre dez e quatro anos no grupo. Alguns da primeira fase voltaram a trabalhar conosco. Mas só eu e o Ivam resistimos todos esses anos.

Umas das principais características de seu teatro é um profícuo questionamento sobre o comportamento moral. Numa trajetória errática, o compositor capixaba Sérgio Sampaio afirmava que a sociedade é estanque. Os Satyros são, sobretudo, uma crítica às hipocrisias da sociedade estanque?

A moral é um dos fundamentos da sociedade. Sem princípios morais, a própria ideia de sociedade seria impensável. Como agir diante de um grupo social – isso nos guia diariamente. No entanto, a nossa pesquisa sobre a moralidade tem a ver com todos os aspectos da sociedade. A moral manifesta não apenas a forma de agir diante do mundo social, mas como as suas estruturas sociais, políticas e econômicas se articulam. Discutir a moralidade é, portanto, discutir os próprios princípios que fundam o exercício do poder na sociedade. 

Quando você leu pela primeira vez a obra de Marquês de Sade? Qual o processo que o levou a adotar este autor como o grande nome de suas peças?

O Marquês de Sade nos foi apresentado em 1990. Nossa iluminadora na época, Paula Madureira, nos desafiou a montar A Filosofia na Alcova. Eu nunca havia lido o Marquês. Aquele universo literário me provocou profundamente. Achávamos que seria impossível montar a peça, e por isso mesmo aceitamos o desafio. De lá para cá, a obra sadiana surgiu em mais duas ocasiões: em 2005, com Os 120 Dias de Sodoma, em que discutimos as relações de poder no Brasil; e em 2009, com a montagem de Justine, a peça investiga o discurso da vítima sobre a questão moral.

O que é ser um diretor de teatro? Em que concerne o teatro veloz? Esse é o seu método?

Um diretor de teatro é alguém que dialoga com o mundo e com os artistas. Esse diálogo traz dificuldades, angústias, incertezas, alegrias e tudo isso é “cenificado” numa parceria com outros artistas. O Teatro Veloz é o método que desenvolvemos para realizar o nosso trabalho. Esse método, na verdade, conta com uma série de procedimentos que tornam único cada processo teatral e que está em constante movimento. Atualmente, pesquisamos a ideia de Teatro Expandido, um conceito que discute os caminhos do teatro e da humanidade a partir do prisma do mundo tecnológico.

A presença dos Satyros na Praça Roosevelt, como de outros grupos de teatro, modificou a relação das pessoas com aquele espaço. Com isso, houve um olhar das autoridades públicas para com a praça. O teatro possui, de fato, essa força de transformação? Pode transformar a realidade de uma cidade?

Talvez em outros tempos, eu diria que o teatro nunca teria poder de transformação urbana. Mas o próprio fazer teatral e a história de onze anos na Praça Roosevelt me fizeram acreditar nesse poder de forma inegável. Hoje arquitetos, urbanistas, jornalistas e sociólogos estudam o fenômeno da Praça Roosevelt como símbolo do poder de interferência do Teatro na paisagem urbana.

Certa vez, em uma página da internet, você contou sobre a esquizofrenia de um tio seu. Você escreveu: “O primeiro surto do meu tio foi na época em que nasci”. Depois você acrescentou: “Ele foi uma presença fundamental na minha infância, um marco cotidiano no mundo fantástico de uma criança (...) foi fundamental para que eu acabasse por ver a humanidade da forma que vejo”. Como o universo quase mágico de experiências como essa aparecem em suas peças? A sua memória também é matéria para a sua arte?

Não distingo a minha memória do que sou como homem e como artista. Com relação às lembranças de minha infância com o meu tio, elas estão impregnadas em praticamente toda a minha obra como artista: o tema da normalidade e da loucura percorre grande parte das minhas preocupações nos espetáculos dos quais participo.

Você é um diretor que trabalha com muitos atores. Atualmente são quase 80 no Satyros. Qual é a sua relação com o ator? O que você exige? O que é fundamental para ser ator atualmente – quando ouvimos expressões, como: “processo colaborativo”, “dramaturgia colaborativa” e “teatro pós-moderno”?

Tive essa discussão outro dia com o elenco. Se você for observar os nossos atores, eles têm características muito variadas: temos desde atores com rigoroso treinamento formal a outros que nunca estudaram, mas que possuem trajetórias pessoais muito ricas, de jovens recém-chegados ao teatro a atores com larga experiência. Ricos e pobres, homo e heterossexuais, caretas e radicais, do centro e da periferia. Há um aspectro amplo representado nos elencos do Satyros, que refletem muito a nossa cidade.

Você montou a peça Vestido de noiva de Nelson Rodrigues, apresentada no centro Cultural de São Paulo. Pensa em montar textos de outros dramaturgos brasileiros?

Nunca pensamos se queremos montar este autor ou outro. Os nossos processos sempre começam com as questões que nos tocam e do desejo de transformar essas questões em cena teatral. Se houver algum dramaturgo brasileiro que nos toque, é claro que vamos montar. Para o ano que vem, pretendemos montar um texto do Evaldo Mocarzel, que é um dos mais prestigiados documentaristas do cinema brasileiro, sobre a vida de Artaud. Ele traz temas caros à nossa maneira de entender o teatro.

Rodolfo, o que ainda falta ao teatro brasileiro em termos de incentivo e leis que fomentem essa arte?

Acho que falta uma política federal mais ampla, que não se apoie tanto em uma estratégia tão equivocada como a Lei Rouanet. Acredito que nos planos estadual e municipal também há muito a ser feito. Em especial, acredito que deveria, em alguma dessas esferas, haver uma política de apoio consistente e contínuo a grupos estáveis. No caso dos Satyros, por exemplo, ficamos quatro anos sem ganhar nenhum edital público (municipal, estadual ou federal), o que dificultou enormemente a nossa produção teatral. Falta também articulação entre esses níveis de fomento ao teatro, de forma que as verbas sejam distribuídas com mais equilíbrio e justiça.

Quais são os seus novos-antigos sonhos? Quais são os seus projetos?

Estamos desenvolvendo dois espetáculos com estreia prevista para o segundo semestre de 2011: Cabaret Stravaganza, no qual as pesquisas do Teatro Expandido vão se aprofundar, e Satyricon, a partir da obra latina de Petrônio. Além desses, temos projetos em cinema, literatura e formas digitais.



Escrito por Rodolfo às 10h00
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