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TEATRO EXPANDIDO (AUGMENTED THEATER) - Rodolfo García Vázquez
 


Por que gostei do artigo do Bernardo Carvalho - 1

Gostei demais do artigo assinado pelo Bernardo Carvalho na Folha de segunda-feira sobre a Satyrianas.

Gostei não por concordar com ele inteiramente, mas por ter sido a primeira  vez que alguém inteligente e sério escreve na  imprensa e tenta entender a Satyrianas como uma manifestação da atitude estética dos Satyros e da relação do seu teatro com a cidade e o nosso momento histórico.

A tese a partir da qual ele parte está ali, estampada no primeiro parágrafo: “Em tempos de crise de critérios, é compreensível que a arte tente se associar a noções inquestionáveis, como a democracia. A Cia. De teatro Os Satyros fez dessa associação uma de suas palavras de ordem. E das Satyrianas...sua expressão máxima...Tem de tudo na Satyrianas. O princípio é de inclusão.”

Mais à frente, ao discutir a questão levantada coloca “por um lado, democracia é diversidade. E ninguém de bom senso é contra a diversidade.”

Ao comentar o que as pessoas dirão ao ver uma sala vazia (com um trabalho talvez interessante), e uma sala cheia (com um trabalho questionável do ponto de vista do gosto) ele diz: “Você dirá que é normal. Que o público escolhe. Então há de convir que, para você, democracia, em arte, equivale à lei do mercado e ao imperativo do gosto – o que é paradoxalmente uma sentença de morte para a diversidade da arte.”

E alerta: “Um célebre crítico americano...defendia a lógica de que ou uma coisa era arte, ou era inquestionável. Não dava para ser os dois. Logo se vê a armadilha, as conseqüências e as contradições, de confundir arte com democracia. E daí a necessidade de desviar o foco para a rua e para o evento. Na praça Roosevelt, a democracia está na inquestionável e bem vinda mobilização social e cultural...”

Sintetiza: “O mais interessante dos Satyros, entretanto, é que esse sentido de oportunidade, num momento de desbaratamento de critérios, também esteja integrado à própria estética do grupo. A resposta dos Satyros à ansiedade da crise é o excesso: se não é possível distinguir agora, então que se produza ao máximo e que se deixe a avaliação para depois. E é até possível que a estratégia acabe dando certo.”



Escrito por Rodolfo às 18h12
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Por que gostei do artigo do Bernardo Carvalho - 2

Não sei se podemos definir que o critério básico das Satyrianas, ou mesmo d´Os Satyros seja apenas o democrático.

A democracia, no sentido da representatividade política  em sua manifestação na sociedade de massas, tende a se tornar inócua e obsoleta. Novos mecanismos estão se formando em pequenas células de interesses comuns. Estes talvez sejam mais democráticos no sentido radical da palavra. Talvez a democracia virtual, aquela dos blogs, das wikis, das redes sociais, esteja mais próxima do que buscamos. Somos, de uma certa forma um wikigrupo teatral.

Mas acredito que algo muito próximo do que o Bernardo observa marca o trabalho dos Satyros: a vontade absoluta de provocar e instigar as pessoas a assumirem o DIREITO INALIENÁVEL DA LIBERDADE DA EXPRESSÃO TEATRAL.

Pode parecer fantasioso demais, mas Os Satyros têm essa característica fundamental: provocar, instigar dentro de seus processos internos e as pessoas que se aproximam de nós a usarem deste direito, e buscarem essa liberdade.

Como em Aquiles, esta liberdade não é algo da ordem do mundo natural. A liberdade é uma construção humana, um movimento árduo de singularização diante do mundo e na consciência que se manifesta da diferença entre mim e o mundo. Em uma sociedade de massas, a liberdade individual se transforma na mais difícil das batalhas. Ao invés do recanto aconchegante da minha TV de plasma e minha alimentação Big Mac, eu me levanto, começo a criar e exponho aos outros teatralmente algo que me toca.

Quando nos referimos ao teatro, a situação ainda se torna mais complicada. A Academia, os círculos fechados de artistas treinados e os seus respectivos amigos (os pensadores do teatro), os atores glamourizados, tudo isto tende a afastar do cidadão comum a ideia de que o Teatro possa ser uma forma de manifestação sua no mundo.

Para Os Satyros, isto é um vício que torna o Teatro uma forma artística elitista e fechada em si mesma.

Fazer teatro significa também tornar o teatro acessível a todos, tanto como experiência de fruição estética quanto forma de liberdade de expressão.

Esta liberdade de expressão teatral se constrói através dos anos, através de gerações. O teatro pleno só pode estar ligado a um povo que se apodera vigorosamente de todas as dimensões do Teatro.

Não cabe às Satyrianas estabelecer critérios estéticos. Nem nunca foi esta a nossa intenção. Talvez porque só acreditemos que estes critérios estão aí justamente para serem desmantelados, e que muitas e muitas vezes eles devem ser reconstruídos a partir das exceções que, curiosamente, se estão à margem da regra em um primeiro momento, num segundo nível tornam-se a própria regra. Provando as limitações dos critérios antigos, trazem novos caminhos para a experiência estética.

Cabe às Satyrianas estimular a construção da Liberdade da Expressão Teatral. E nesse sentido, As Satyrianas jamais seriam um Festival de Teatro Tradicional. A Satyrianas está muito mais para uma wikifesta, uma rave, um carnaval, do que para um Festival.

Nos festivais, os critérios estão presentes. Parecem objetivos, mas são sempre tão arbitrários. . Algumas cabeças bem-pensantes e refinadas reúnem-se durante alguns dias em comitês secretos, apegam-se a esses “critérios” (que logo vão se desmanchar no ar) e  decidem os limites, os cânones, os paradigmas que guiam o Festival. As Satyrianas, por outro lado, são uma ebulição de encontros, erros, acertos, encantos, acasos e frustrações. Alguns eixos são colocados mas o prazer de mergulhar no Caos da Incerteza está presente em quase todas as decisões. As Satyrianas não tem medo de errar, porque o critério não é o do acerto, mas do encontro. Como nas wikis (pedia, ou leaks), a Satyrianas é um canal para o caos expressivo que será formatado não pela ”curadoria”, mas por quem dela participa. O critério é da celebração à Liberdade e ao Teatro.

Do ponto de vista do público, as Satyrianas também são um curto circuito nas leis tradicionais. Todos devem enfrentar filas para decidir finalmente qual o valor do seu ingresso. A fila é um espaço igualitário, na medida em que todos têm que enfrentá-la. Atores globais, anônimos sem recursos que esperam as Satyrianas para assistir teatro, amigos, todos ficam iguais na democracia da fila. O valor do ingresso obriga o espectador a fazer sua contabilidade estética: um espetáculo vale mais do que uma cerveja? (muitos espectadores provam nas bilheterias que não). O público também forma o seu gosto durante o evento, elegendo seus favoritos, os incômodos, os equívocos. O comentário rola solto nas filas, nos bares e nos blogs críticos. A Satyrianas não pára de reverberar e repensar-se.

O que sentimos durante todos estes anos de Satyrianas é que este princípio democrático que nos guia é o único que realmente vale a pena, pois acaba dando condições a que acontecem os seguintes fenômenos:

- gradualmente as montagens do Dramamix estão se sofisticando, gerando semi-espetáculos que depois podem assumir proporções maiores e entrar em cartaz,

- a programação vem melhorando e se ampliando ano após ano,

- o público vem pagando valores cada vez mais significativos pelos seus ingressos, tornando-se mais consciente do valor do trabalho do artista.

 

Estes princípios, que regem tanto a Satyrianas quanto a própria concepção do que é o Satyros, nos levaram a conviver e criar-junto com a comunidade da Praça, nos levaram a acolher  muitos e muitos moradores do entorno que hoje fazem parte do grupo, nos instigou a convidar artistas das mais variadas tendências estéticas, partidárias, sexuais a se apresentar em nosso micro-espaço.

Eles nos fazem manter viva a chama da curiosidade. Em tempos sonolentos, isso provoca, pelo menos, uma faísca diferente.



Escrito por Rodolfo às 18h11
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