Depois da estréia
Ontem voltamos com "Vestido de Noiva" para São Paulo. Que bom volta a sentir os atores com tesão, vibrando, seguros apesar de não termos feito nem mesmo um ensaio geral completo.
E hoje, vindo para o teatro, cruzo com a solitária desdentada, descompensada da Praça. No meio do som absurdo das marretas, ela resmunga:
- Estão arrebentando a parte estrutural da Praça. Não pode. Não foi licitado. Vergonha!
Em seguida, vejo o dono do cachorro de raça passeando por ali, tratando aquele entulho todo como se fosse dele. O homem fino, com seu cachorro fino, seu nariz arrogante, arrogantemente passeando no meio daquele lixo era uma imagem insólita, ridiculamente insólita.
Mais adiante, vejo a placa de inauguração da Praça. Praça Roosevelt, entregue ao público em 1970 pelo prefeito Maluf e pelo presidente Médici.
Médici? Maluf?
Médici?
Ainda deixam uma placa com o nome do Mèdici na praça do presidente americano? Estão destruindo tudo, estão reclamando de tudo, mas ninguém reclama do nome do Mèdici ali há praticamente 40 anos?
A desdentada reclama da falta de licitações, o dono esnobe do cachorro controla o entulho, mas ninguém pensa que até hoje, naquela praça, existe uma placa com referências ao presidente com um currículo de tanta tortura e tanta morte.
Vou para o escritório em passo lento, carregando comigo a boca desdentada, o cachorro de raça, o nariz arrogante e a placa do presidente Mèdici. O dia começa irreal.
Só penso que não posso parar. Um pé depois do outro. Tento não me perder no meio dessas imagens e a única coisa que me parece razoavelmente lógica em tudo isso são os meus pés, caminhando, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda.
Escrito por Rodolfo às 10h33
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O Anjo
"Eu vi o anjo no mármore e fiquei esculpindo até que eu o libertasse da pedra."
Michelangelo
Escrito por Rodolfo às 09h21
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