Aventuras cubanas com o Teatro de los Sueños
Ao final da nossa estréia um grupo nos aguardava do lado de fora do teatro. Eram muito jovens, uns seis ou sete, com uma mulher mais velha, e queriam nos cumprimentar pelo trabalho. Eram amadores e o grupo deles se chamava TEatro de los Sueños (Teatro dos Sonhos).
A diretora dizia que os levava sempre para assistir a tudo, pois eles tinham que conhecer teatro, de todos os tipos, eram "aficionados" mas tinham ambição. A molecada parecia curiosa, ávida, intensa...mas calada. Me esqueci provisoriamente deles nos dias que se seguiram.
Na segunda feira após nossa estréia, fomos convidados pela Casa de las Americas para um encontro onde falaríamos sobre a nossa trajetória. E lá estavam eles...de novo! Ávidos, curiosos, intensos.
Ao final, fomos convidados a um cock tail e eles nos acompanharam novamente! E insistiram num convite: fariam uma homenagem ao Dia do Orgulho Gay na sexta feira seguinte, na Casa de Cultura onde ensaiavam, na periferia de Havana. Insistiram muito. De início, ignoramos o convite. Achamos estranho...um daqueles convites que sempre fazem e você faz questão de esquecer. Mas eles tinham alguma coisa diferente, não dava prá saber exatamente o quê. Talvez aquela certeza, aquele olhar confiante...era difícil identificar o que.
Eu perguntei a vários amigos cubanos se os conheciam, se sabiam alguma coisa do grupo ou dessa Casa de Cultura. Só me diziam que era um bairro muito muito distante, e que nunca tinham ouvido falar neles. Trataram o convite como coisa esquisita, seria uma "roubada" daquelas. Amadores, iniciantes de tudo. Ficamos em dúvida se deveríamos ir ou não a esse evento, tínhamos outros convites para fazer outras coisas (festas de atores profissionais chics em Havana, clubes, etc...).
Alguns de nós resolveram ir à festa, ainda inseguros se essa seria a melhor opção, mas já pensando numa forma de escapar caso fosse um mico. Evaldo nos acompanhou com seu incansável Bibi e a câmera (ainda bem).
Longa viagem até chegar lá. Como se estivéssemos indo para Interlagos ou depois de São Miguel...lugar distante e escuro. Era uma vila onde moravam militares, a Casa de Cultura era uma casa abandonada numa esquina e lá chegamos.
Ao entrar, umas vinte ou trintas pessoas. Eles ansiosos pela nossa chegada.
Evaldo negocia a filmagem com a diretora da Casa de Cultura, uma engenheira química que abandonou tudo para fazer trabalho cultural. Seu nome: Lyssett.
Lissett fica com receio inicialmente, mas libera a filmagem.
Então começa a cerimônia.
Eles nos convidam a sentar e distribuem papeizinhos pintados a mão com a bandeira gay e a data comemorativa. Esses papeizinhos lembravam coisas que crianças fazem na escola para os Dias dos Pais ou das Mães. Havia um clima estranhamente ingênuo naquele início de cerimônia.
Era a primeira vez que eles faziam o evento de forma oficial. No ano anterior, também tinham comemorado o Dia do Orgulho Gay, mas sob o nome de "Dia da Prevenção da Aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis". Este era o primeiro ano em que comemoravam o Dia do Orgulho Gay de forma oficial. Então Lyssett começou seu discurso: "Espero que todos que estão aqui estejam do nosso lado e não queiram nos prejudicar. Ainda vivemos tempos difíceis." Enquanto falava, fazia sinal para a câmera do Bibi se afastar. Era óbvio o receio no ar.
Então começou o espetáculo deles. A ansiedade era geral com a nossa chegada. Eles queriam ser visíveis para alguém, nem que fossem estrangeiros que iriam abandoná-los nos próximos dias...naquele mundo anônimo cheio de regras em que vivem, eles precisavam de alguém que os entendesse de alguma forma.
Explode uma força, uma gana, uma energia, uma urgência que havia anos eu não via em teatro. Fiquei totalmente tocado por aquilo, por aquela vontade de dizer algo, algo que ainda é perigoso, por entender a força daquele teatro escondido atrás das janelas cobertas de papelão, evitando olhares alheios. Não havia iluminação, nem textos pós-dramáticos, não havia teatro colaborativo, nem figurinista premiado, a direção era amadora e os atores às vezes, exagerados...mas o teatro estava lá. O teatro total.
Em vários momentos senti vergonha. Vergonha de fazer e viver um teatro que cada vez mais se afasta das coisas essenciais, das verdades mais profundas...e se preocupa apenas com mídia, soluções estéticas e discursos acadêmicos banais. E chorei quase toda a apresentação.
Um dos meninos vai fazer parte do elenco de "Inocência" na versão cubana. Achei incrível a coincidência! Esse começa a entrar no universo profissional.
Outro, Arnaldo, tinha 16 anos! Fez Dália, o brilho da noite...uma drag emocional e intensa que, apesar das contínuas falhas no sonzinho da sala, mantinha a energia essencial intacta e digna. Inesquecível a imagem da menina operadora de som, ao lado do aparelho, segurando os fios do toca CD que teimavam em se desconectar. Tão precário e tão humano.
Ao final, levaram uma menina que tocava um tecladinho básico e nos homenageou tocando...bossa nova em português! O esforço para nos alcançar, demonstrar o seu carinho por nós, era impressionante. Provavelmente ela passou a semana inteira ensaiando e aprendendo as palavras em português. "A GArota de Ipanema" tomou prá mim outro sentido a partir desse dia.
Comemos bolo com as mãos e lavamos as mãos em um balde, numa sala sem luz. Rimos muito. Choramos.
Na nossa última noite, eles nos acompanharam a uma festa na casa do José Alonso. E falamos muito sobre a vida, bebemos, andamos pelas ruas, pegamos ônibus de madrugada, ônibus lotado de pessoas cantando músicas de uma alegria cheia de melancolia...e falamos também sobre as esperanças de um futuro incerto.
O futuro de Cuba também está nas mãos deles, na periferia de Havana...o Teatro de los Sueños!
Escrito por Rodolfo às 09h45
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