Aventuras cubanas com Armando
Armando é um senhor de 68 anos, alto, forte, simpático e bonachão. Ele era o responsável por nos acolher na Casa de Visitas onde ficamos hospedados durante os quinze dias. A Casa de Visitas ficava justamente entre a sede do PCC (Partido Comunista Cubano) do bairro distante de Marianao e a casa de Armando.
Armando era um jovem analfabeto quando a Revolução Comunista aconteceu. Ele se uniu, desde o início, aos rebeldes contra Baptista. Aprendeu a ler e escrever, colaborou em todo o processo revolucionário do início dos anos 60. No meio da década de 60, como estudante destacado e militar ascendente, foi enviado para a Rússia, onde estudou Defesa Nacional contra Ataques de Armas Químicas. Sempre levantei a hipótese de que ele tivesse sido treinado também pela KGB, mas ele sempre negou.
Armando fala russo fluentemente, aliás teve suas namoradas russas ("apesar de elas sempre preferirem os negros cubanos!") e foi tenente coronel responsável pela direção de uma das plantas nucleares e de defesa química de Cuba, durante todo o período da Guerra Fria, até o início dos anos 90, quando se aposentou.
Armando é absolutamente convicto da Revolução e suas frases espetaculares eram ouvidas diariamente.
"Os aviões americanos passaram anos voando sobre Havana, nos ameaçando. Os americanos sempre quiseram nosso fim."
"A democracia em Cuba existe, sempre que for a favor da Revolução, é claro."
"Esses jovens que andam fazendo baderna em Havana são pagos pelo governo americano para nos ameaçar."
"Eu já vivi nos Estados Unidos, mas aquilo não presta. Eles não tem amigos, só dinheiro."
"Nós temos que tomar conta de vocês, você nunca vai ouvir falar de um estrangeiro que tenha problemas em Cuba. Não podemos ter incidentes diplomáticos."
"Vocês não podem entrar na cozinha. E se houver um agente da CIA infiltrado entre vocês, e ele quiser envenenar a comida? Seria um caos nas Relações Internacionais. Você nunca sabe com quem está lidando, eu aprendi isso com a vida."
"Cuba está só no mundo contra o capitalismo. A China não é mais comunista."
E seu apego às regras e hierarquias era canino. Jamais tomava uma decisão com relação à nossa vida na casa sem consultar superiores.
Qualquer pedido que fizéssemos em relação ao cotidiano da casa, ele consultava seus superiores hierárquicos, que lhe davam as respostas claras e que ele seguia com toda a certeza do mundo. Tudo, absolutamente tudo, era consultado. Ele se recusava a dançar, apesar de adorar isso, pois deveria ser sério no exercício da sua função.
No final da segunda semana, um dos vizinhos da nossa rua faleceu. Teve um ataque fulminante. Armando foi o responsável por alugar um ônibus, cotizar os vizinhos, e levar todos para o seu funeral. "Era um grande amigo, não podíamos deixar de dizer adeus." Um gesto tão generoso e solidário..."tão distante do capitalismo" - essa frase ele disse com prazer e superioridade moral.
Apesar das regras, das teorias de conspiração, do dogmatismo e do apego às hierarquias, Armando era generoso e um bom papo. Foi um grande presente na nossa aventura cubana, rico e complexo como a terra em que nasceu, como todos os cubanos, como a Phedra. Aliás, adorava a Phedra e vivia cheio de curiosidades sobre ela... Ganhou até um presente dela: guaraná em pó - para dar juventude.
E por incrível que possa parecer, conseguimos entender a sua lógica e nos comunicar com ela, de forma extravagante e errática, divertida e delirante.
Ao final, me pediu discretamente, que caso eu voltasse a Cuba, se seria possível levar Viagra para ele. "As coisas não andam bem como antigamente." Para nos agradar, no último dia, ele deixou os ares condicionados ligados além do horário estabelecido pelas normas da casa. Numa clara afronta às regras que ele tanto defendera, ele quis nos mostrar o seu afeto, mesmo correndo riscos.
Sem ele, Cuba teria sido menos Cuba para nós...
Escrito por Rodolfo às 18h55
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Aventuras cubanas com Phedra - 3
Phedra se posta na entrada da sala. Mas Evaldo, nosso amigo e documentarista incansável, resolve tomar as rédeas do real prá poder levá-la para a ficção: "Prá luz, Phedra, prá luz!"
Ele a empurra para o centro, onde há luz suficiente para a gravação. Ela continua tremendo de emoção, e nem nota o empurrão estratégico.
- Canta uma das canções que você aprendeu nessa sala, há 50 anos! - alguém diz.
Ela se põe a cantar canções que tocam todos os garçons e cozinheiros cubanos, coisas que elas tinham ouvido como reminiscências de um passado distante. Aplaudem a cada nova frase musical...
Ao final de cinco ou seis canções, abraça emocionada o garçom que lhe havia aberto a porta mágica.
- Se não fosse por você, eu não teria voltado aqui. Gracias! Gracias!
Evaldo, implacável em seus objetivos, dita:
- Pro palco, Phedra!
Ela sobe ao palco todo empoeirado. As cortinas de veludo vermelhas ainda guardam algum vestígio do glamour burguês de 50 anos atrás. Ela fala das figurações que fez, ainda menino, para as companhias e grandes nomes do teatro cubano e espanhol. Fala das aulas que teve.
Ao descer do palco é aplaudida com entusiasmo doido. E Ivam Cabral dispara, sem perceber, diante da câmera:
- Meu Deus! Estou num filme de Almodóvar! Estou num filme do Almodóvar!
Todo mundo ri e chora - e tenta entender o que ela sente, ninguém consegue acreditar que tínhamos caído naquele local por acaso. No meio de centenas de paladares de Havana - tinhamos que ir para aquele. No meio de tantos garçons - tínhamos que conversar com aquele. No meio de tantas frases desconexas de álcool - Phedra tinha que dizer o que disse. E a porta mágica tinha que ser aberta.
Era destino dela, e de Phedra.
Ao sairmos, nos despedimos de todos os garços e cozinheiros como se tivéssemos todos recebido do destino um presente inesquecível. O dia em que Phedra entrou pela porta da sua adolescência.
Escrito por Rodolfo às 23h04
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Aventuras cubanas com Phedra - 2
Após três dias de Havana, decidimos jantar em algum lugar diferente. Tínhamos ouvido falar dos paladares e decidimos ir a um. Pedimos ao nosso guia, Gil,um homossexual reprimido e deliciosamente divertido, que nos indicasse um bom local.
Chegamos ao paladar. Era de um cubano piloto de aviões que trabalhara no Canadá e voltara a sua Cuba natal como milionário, para os padrões locais. Sentamos, pedimos uma comida deliciosa (e como são boas e baratas as lagostas cubanas!). Começamos a beber e ríamos muito. Afinal, estávamos relaxando após os primeiros dias de choque com a realidade local.
Todo mundo na mesa começa a pedir para Phedra cantar alguma coisa para nós. Afinal, ela está em Cuba, está se divertindo, estamos relaxados e já estávamos razoavelmente adaptados ao Caribe comunista. Ela faz um pouco de charme, mas após alguns longos 3 segundos de insistência, ela aceita o convite, se levanta e faz um pequeno discurso.
Os garçons, que até então conversavam com ela sobre os artistas cubanos de antigamente e se divertiam com ela, chamam as pessoas da cozinha. O paladar está vazio, então o seu público somos nós do Satyros e o pessoal da cozinha e os garçons...mas ela transforma aquilo no palco de sua vida, num grande evento. Seria a primeira apresentação dela em Cuba e não poderia perder a oportunidade.
O discurso é de uma diva voltando ao seu país. Bibi corre para pegar a câmera. "Sinto grande orgulho de voltar ao meu país, depois de 54 anos. Vou dedicar esta canção aos meus amigos dos Satyros e a vocês, meu querido povo cubano!" O "vocês" são os garçons e os cozinheiros, mas para nós, era como se as multidões de Fidel estivéssem todas ali empunhando a bandeira da tolerância.
Ela escolhe canções antigas, canções de uma Cuba que se apagou e insiste em permanecer viva na sua memória.
Todos nos encantamos e existe uma comoção no ar. Os garçons sorriem felizes, inclusive o garçom Alfredo (que fará parte da nossa história cubana nos dias seguintes). As cozinheiras se encantam e aplaudem muito.
Após uma seleção musical na linha "The best of Cuba in the 50's", Phedra se senta. E todos continuamos a rir e delirar.
Então, casualmente, ela menciona ao garçom que começou seus estudo em um local perto dali, na Sociedad Artistica Gallega.
- Mas a Sociedade Gallega é aqui! - o garçom encantado responde.
- Como assim? - ela responde.
- Sim...é aqui.
- Não...você está brincando comigo.
- Naquela porta!
Ela se levanta tremendo, anda alguns passos, passa pela porta do restaurante, e se defronta com uma outra portinha ao lado. Um túnel do tempo de 54 anos se abre nos 2,5 metros que a separam dessa nova porta - é a porta mágica. Ela entra, completamente transtornada. A câmara de vídeo atrás dela, os atores, as câmeras, os garçons, os cozinheiros, Evaldo, todos nós atrás dela...Todos a seguem tentando entender a porta mágica...
O garçom abre a porta. Ela entra. A voz quase não sai da sua boca, os olhos revistam todo o lugar com um deslumbramento descomunal, pelos detalhes do salão abandonado, as cortinas de veludo antigo e empoeirado, o piso desfeito, a pintura descascada de algo que já foi elegante e fino. No fiapo de som que sai da sua garganta, todos conseguimos ouvir:
- Foi aqui! Foi aqui! Foi aqui!
E desata a chorar um choro inalcançável. O choro que tanto esperamos na chegada, aconteceu noutro momento.
Escrito por Rodolfo às 08h53
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Aventuras cubanas com Phedra - 1
A chegada da Phedra a Cuba estava cercada por muita expectativa. Todos nós especulávamos como ela iria reagir, pensávamos que ela precisaria tomar algum calmante antes de descer do avião, que talvez não fosse aguentar o tamanho da emoção que a assolaria. O avião pára e começamos a pegar as coisas para descer. Todos se organizam para a sua chegada. Evaldo e Bibi pegam os equipamentos, Audrey, jornalista da Folha, com máquina fotográfica na mão e pronta prá disparar; atores com mais máquinas. Passando pelo finger, ela parecia uma atriz holywoodiana vinda dos anos 40, cercada de fotógrafos, com aqueles óculos escuros, a blusa transparente meio puída mas ainda sexy, o cabelo misturado à peruca antiga fazendo um efeito bicolor engraçado e deliciosamente kitsch.
Ela reclama: "Que calor!" e continua pelo corredor, absolutamente indiferente. Absolutamente nada aconteceu. Os funcionários do aeroporto se esforçam por reconhecer a diva indiferente. Nenhuma lágrima, nenhuma emoção mundana, nem de dor nem de alegria. A ansiedade era tanta que nada poderia fazê-la se emocionar com o fato de ela voltar a sua terra natal depois de meia década. Ao chegar ao aeroporto, uma agente da alfândega nos espera e diz: "sr. Rodolfo e sra. Phedra, por favor me acompanhem! vamos passar pela área VIP!". Eu a acompanho com um sentimento de espanto - sinceramente não esperava distinção tão grande - e espero finalmente que alguma emoção excepcional passe pelo seu rosto. Apesar de seu passaporte dizer outro nome, ela foi tratada pelo nome que escolheu para si!!! E como esse nome lhe custou tanto durante todos esses anos? Voltava para a mãe que a pariu (e de certa forma a desprezou) e esta a chamava de Phedra!!!! Existiria maior emoção que essa? Nem o programa do Faustão poderia imaginar efeito melodramático mais imponente do que este. Mesmo assim, nada acontece. Ela se mantem impavidamente diva, e reage como se nada estivesse acontecendo e nem a afetasse...era Phedra, a diva, de volta.
Aquela chegada indiferente e posada para câmeras, cheia de cerimônias oficiais, mal poderia indicar tudo o que passaríamos nos dias seguintes, o turbilhão de sensações e vivências, tudo o que aconteceu com a Phedra humana nos dias seguintes. Mal imaginávamos o que viria pela frente...
Escrito por Rodolfo às 08h40
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O retorno de Cuba...
Após 15 dias, estamos de volta ao Brasil. As casas, as ruas, as pessoas no Brasil já não parecem mais as mesmas.
Após uma convulsão de sensibilidades, realidades, biografias, odores e paixões, nunca se volta igual. A vida adquire novos contornos e os sonhos também.
Aos poucos eu vou me reencaixando nesse mundo, tentando entender o que vivemos.
Cuba foi a grande experiência de mundo que nos faltava. Através de Cuba, entendemos um pouco mais de nós mesmos. Através de Cuba, um espelho gigantesco.
Estamos em choque, apaixonados pela ilha do Caribe, felizes de termos vivido tudo aquilo...e com uma leve sensação de amargor.
Escrito por Rodolfo às 15h59
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