Outras viagens comunistas...
Dando uma entrevista a um órgão de imprensa cubano, me lembrei de outra viagem louca, de Kiev, Ucrânia.
Entramos no país sem dinheiro, deixamos nossos passaportes no local onde estávamos hospedados, a Casa de Veraneio das Lideranças do Partido Comunista.
Corredores amplos e limpos, quartos imensos, tvs da década de 50, branco e preto, passando novelas brasileiras com um locutor em ucraniano fazendo a tradução por cima. Ouvia a voz singular da Lucélia Santos, do Grande Otelo, por baixo, e por cima, vinha aquele locutor com tom oficial, traduzindo.
A sensação de desproteção, de estar rodeado por um Estado poderoso e absolutamente indiferente ao indivíduo, era o que mais me chocava naquele país.
Um dia, eu, Ivam e Dimi fomos andar em volta de um lago congelado pelo frio...Chegamos e vimos dois meninos brincando com uma prancha de madeira, escorregando pela neve.
Nós 3, adultos, fazíamos um boneco de neve e nos divertíamos muito e víamos os meninos que brincavam, mas não eram vivos, pareciam robôs. Os rostos vazios, melancólicos, perdidos, enquanto os corpos brincavam.
A gente se aproximou e pediu a prancha emprestada, felizes também queríamos brincar. E os rostos dos meninos permaneceram vazios...o niilismo infantil, uma imagem que eu imaginei que jamais veria, estava ali diante de nós. Escorregamos na prancha deles e em seguida destruímos o nosso boneco de neve, brincando. Fomos embora como crianças e eu seria incapaz hoje de me lembrar dos detalhes daquele lago ou daquelas brincadeiras...mas aqueles dois rostos ficaram como imagens eternas.
Escrito por Rodolfo às 10h28
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A Estátua da Liberdade Cubana
Talvez a ação mais política dessa viagem a Cuba seja a ida de Phedra d. Córdoba.
Ela é a verdadeira estátua da Liberdade do século XXI.
Não será transportada de navio durante semanas, como aconteceu quando os franceses deram o seu presente gigantesco aos americanos.
Será transportada em um assento pequeno e desconfortável pela COPA, com escala no Panamá.
A nossa Estátua da Liberdade, que será oferecida a Cuba esta semana, está cheia de silicone da década de 70, já todo empedrado, o que a transforma em uma estátua maciça e resistente - resistente a qualquer intempérie. Sua hérnia está descansando e não deve incomodá-la. Sua tosse de cigarro também não causará estragos na paisagem caribenha.
Semana passada ela disse a um amigo deslumbrado, como é que ela não ficava feliz com a atenção dos cineastas e da imprensa:
- Meu filho, já sofri tanto nessa vida que não me deixo levar por nenhum galanteio.
Sábia a Estátua Havanesa. Quem sofreu demais não se deixa levar pela vaidade comezinha. O prazer das homenagens vem como pequenas doses de um licor saboroso. Nunca se ouviu falar de alguém que tenha dado a vida por uma dose de licor. Mas é delicioso ter esse privilégio...é assim que pensa nossa estátua rumbeira.
Nem em sonhos, nos tempos em que vivia como cortesã e fazia shows em saunas gays decadentes para poder comprar algo de comer, ela poderia imaginar a reviravolta de sua vida.
Nem em sonhos, nos tempos del "doidón del Fidel" (palavras de Phedra), se poderia imaginar uma transexual cubana imigrada ser convidada a se apresentar em sua terra natal pelo Ministério da Cultura de Cuba.
Como diria o outro doidón do lado de cá: "Nunca antes nesse mundo!"
Seus irmãos, seus pais, todos mortos...talvez um sobrinho que ainda estaria morando na casa da sua infância.
Ela me pediu, com gentileza, que eu a acompanhasse nesses lugares. E eu senti não como um favor que eu estaria fazendo, mas um privilégio tão especial que me foi concedido, tão saboroso quanto o melhor dos licores.
No fundo, no fundo, se nós formos lá no mais escondido de toda essa história, esta viagem é por ela, por sua história.
Há dois meses estamos ensaiando, trabalhando muito, sem nenhum tipo de apoio, simplesmente para realizar um sonho - afinal todo mundo ama um happy end, nem que seja provisório, torto e capenga.
Escrito por Rodolfo às 12h52
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