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De Olhos Sempre Abertos - vivendo o espanto - Rodolfo García Vázquez


Painel do Leitor

 

Segue a carta que dirigi à Redação da Folha de São Paulo e que foi, parcialmente, publicada hoje no Painel do Leitor:

 

Teatro
"Fiquei chocado com o editorial "Aperfeiçoar a Lei Rouanet" (Opinião, 6/4). Pensei que a Folha soubesse dimensionar a aberração da referida lei.
É óbvio que existem espetáculos que são viáveis financeiramente e não precisariam dessas leis. Mas então por que justamente eles são os maiores beneficiados pela isenção fiscal?
O risco de manipulação ideológica de verbas caso a Lei Rouanet fosse extinta ignora que a própria lei já manipula verbas por meio dos departamentos de marketing das empresas. São pessoas de marketing os verdadeiros vetores ideológicos da cultura brasileira da última década!
Alegar que a Lei Rouanet é adequada como parte de uma política cultural é desmerecer a cultura, atitude típica da nossa sociedade, que encara a arte como algo secundário e fútil.
O absurdo da lei pode ser constatado da seguinte forma: e se as leis de isenção fiscal fossem aplicadas a outras áreas, como saúde, educação e transportes? Quais seriam as conseqüências dessa política de governo? Quais projetos aprovados pelo Ministério de Saúde seriam privilegiados pelos benefícios das empresas senão aqueles de hospitais dirigidos aos consumidores dessas próprias empresas? Quais os projetos de escolas que receberiam os patrocínios das empresas? Sem falar nas estradas.
Quem, em sã consciência, delegaria a um gerente de marketing as decisões sobre os investimentos em saúde e em educação?"
RODOLFO GARCÍA VÁZQUEZ, do grupo teatral Os Satyros (São Paulo, SP)



Escrito por Rodolfo às 16h18
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acredito no poder do teatro...e no poder do cuco

 

A minha biografia da juventude foi marcada por dois agentes poderosos: o teatro e o relógio cuco.

Vivia na casa dos meus pais, 19 anos, estudante da USP e da GV (paradoxo que depois revelaria minhas essências). Meu pai chega do escritório e exaltado reclama: "Quem mexeu no relógio! Parou!" Era um relógio muito antigo, herança de família, e que só funcionava à corda.

"Não precisa gritar...era só um relógio." - respondi no auge da minha rebeldia adolescente.

"Enquanto você morar aqui, vai ter que entender que a casa é minha e eu grito quanto eu quiser na minha casa." - respondeu meu pai.

Duas semanas depois eu fui embora. Eu tinha pressa de viver a vida, não queria perder tempo, fosse com meu pai, fosse com um relógio. Comecei a me sustentar dando aulas de inglês e espanhol. E passei maus bocados. Em dois anos, vivi em mais de dez repúblicas de estudantes com pessoas de todos os tipos e cores. Aprendi de tudo um pouco e, principalmente, a me virar sozinho. 

Às vezes, penso o que teria sido de mim se não tivesse sido o fato banal daquele relógio antigo ter sido mexido por um desavisado: teria ficado até que idade na casa dos meus pais? que outras experiências eu teria vivido? em que pessoa eu teria me transformado? talvez eu tivesse casado???

O cuco mudou a minha vida?

E no meu aniversário deste ano, ganhei finalmente um cuco. Um cuco meu!!! O passarinho de madeira sai da casinha de meia em meia hora e faz aquele som típico. É alemão legítimo. E dá vontade de rir da esquisitice. Mas eu adoro.

E o interessante é que sou obrigado a puxar suas correntinhas de ferro todos os dias, pelo menos duas vezes por dia. Caso não faça isso, ele pára de dar o ar da graça e saltitar prá fora da casinha...o Tempo pára prá ele.

Então, me esforço para não me esquecer dele e nem do Tempo. E toda vez que eu puxo as correntinhas, tenho uma leve sensação de que sou senhor do Tempo. O Tempo daquele cuco depende de mim. Uma sensação de um semideus idiota.

Também não sinto a pressa que tinha aos 19 anos (apesar de ainda hiperativo). E acho relativa a expressão "perder tempo". E estou em paz com meu velho. E volto a ver, com uma paz meio nostálgica, na cozinha do meu apê, o cuco da minha infância.

Afinal, acredito no poder do teatro, mas não posso negar nunca o poder do cuco, jamais...Um cuco pode mudar muitas vidas também.



Escrito por Rodolfo às 19h07
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O poder do teatro?

 

Acho que o Sálvia quis me desafiar com o seu "ou não". Aceito o desafio de falar um pouco mais sobre o que eu entendo como o poder do teatro.

O Leandro Knopfholz, "inventor" do Festival de Curitiba, sempre conta essa história. Molecão, ele foi assistir "New York de Will Eisner", do Edson Bueno, em Curitiba. Nâo tinha nem 20 anos. Ficou tão empolgado com aquilo que viu que teve a idéia do Festival de Curitiba.

Hoje, o Festival de Curitiba envolve números gigantescos e tem filas homéricas. Movimenta dinheiro e agita a cidade de 2 milhões de reais. A peça de Edson Bueno nunca mais voltou ao cartaz depois daquele início de anos 90, mas sua importância não ficou restrita ao deslumbramento do seu público. Teve efeitos de longo prazo, culturais, políticos e econômicos.

Eu, quando larguei a administração, pensava em fazer teatro mas não sabia exatamente o que poderia ser. Não conhecia teatro direito. Então fui fazer pós. E estudei um grupo que naquele momento praticamente estava inativo: o Oficina.

Durante dois anos na USP, estudei o teatro dos anos 60 e o Oficina. As transformações estéticas, o teatro de grupo, a radicalidade, a diáspora em função da ditadura. Foi inspirado naquele teatro que eu nunca assisti que tentei criar a minha trajetória como artista.

Quando nos sugeriram a montagem de "A Filosofia na Alcova", início dos anos 90, Paula Madureira, a nossa iluminadora, dizia: "Duvido que vocês tenham coragem de montar isso."

E só por sabermos que antes houvera "A Vida de Galileu", "Roda Viva", "Gracias Señor" e "O Rei da Vela" foi que tivemos coragem de enfrentar o desafio. Se os palcos do Brasil já tinham visto ousadias, aquela poderia ser uma nova ousadia para um novo tempo.

O Leandro e eu somos provas de que biografias podem ser mudadas pelo teatro. E se as biografias microscópicas podem ser mudadas, a sociedade pode ser mudada.

O Teatro Oficina não deixará marcas apenas na lembrança dos seus espectadores, mas no imaginário social, nas formas estéticas, em gerações futuras. O Oficina deixará suas marcas em tantas biografias, como a minha...Assim como os grupos mais novos, como Vertigem, os Parlapatões, o Cemitério de Automóveis, os Satyros, e tantos outros, deixarão marcas para o futuro.

Esses grupos e seus artistas estão propondo novas formas de ação teatral e de intervenção com novos parâmetros para o entendimento da nossa sociedade. E certamente muitas outras biografias serão mudadas.

Somente por causa dessa crença continuo acreditando com tanta força no poder da arte. E na responsabilidade do que fazemos. 

 



Escrito por Rodolfo às 09h45
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