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De Olhos Sempre Abertos - vivendo o espanto - Rodolfo García Vázquez


Aprendizado...

 

Hoje, quando vinha de Curitiba para São Paulo, eu fui tomado de uma espécie de loucura de amor...amor por aquelas pessoas da Vila Verde.

São tantas, mas tantas coisas acontecendo, tantos relatos, tanto drama, tanta dor. Eu sinto necessidade de registrar no blog, de não me esquecer jamais de tudo aquilo. Mas fico constrangido por não conseguir alcançar a dimensão plena dos fatos. A filha torturada pelo pai, o filho imerso em uma banheira de água quente e sal com seu corpo ensanguentado, os filhos assassinados, as crianças oferecidas pelos pais, o medo dos traficantes, os assassinos de sorriso simpático e inteligente, a solidariedade e a mesquinhez.

Aprendi coisas que anos de sociologia na USP, de filosofia autodidata e de psicanálise claudicante só tinham me passado como abstrações teóricas. A luta de classes, a miséria nacional, as injustiças do nosso país, tudo isso eram categorias às quais eu me apegava e através das quais eu entendia o mundo. Hoje, elas são uma realidade absurda diante dos meus olhos.

Senti na pele todas aquelas histórias e aprendi que a humanidade pode adquirir dimensões gigantescas na Vila Verde, seja na miséria, na fome, na morte, no abandono, na humilhação total.

E acho que o que aprendi, essa coisa que entrou na minha pele, me faz repensar o mundo e as coisas, o teatro e a política, o pior lado do homem e o mais sublime. Sim, mesmo naquele caos, além do horror, o sublime aparece e de forma luminosa...uma luz incrivelmente forte e ofuscante.

Andei pelas ruas com o Jessé, um dos líderes da comunidade, e pedia a ele que me contasse um pouco da história do lugar. E as histórias eram só de morte. Por todas as casas, por todos os cantos, mortos e mais mortos. Canudos não é tão longe assim. É incrível a quantidade de pessoas que foram assassinadas por lá. Todos têm alguém na família que morreu brutalmente. Linchamentos também acontecem ainda hoje. Pessoas ainda morrem apedrejadas. E pela primeira vez eu entendi o que significa um linchamento. "O rosto fica desfigurado, e o cara fica ali agonizando horas na frente dos outros".

É incrível a quantidade de pessoas que passaram fome,e os relatos que eles me fizeram da fome foram assombrosos. "Chegou um momento que eu pensei que não ia suportar." Mas como ela conseguiu suportar, se não foi através da força e do espírito indomável de sobrevivência da Humanidade? 

Em alguns momentos, eu sentia que perdia o chão, no meio das entrevistas. Eu queria parar e esquecer tudo o que eu ouvia. "Minha mãe me abandonou como uma cadela...mas nem uma cadela faria com os filhotes o que ela fez comigo." Eu não queria ter ouvido isso, no meio de lágrimas infinitas.

Era como se eu estivesse sendo apresentado a algo que está além da minha compreensão.

Alguns, disfarçadamente, ainda passam fome, mas a vergonha esconde a fome. Sinto isso no meio dos ensaios...mas eles não falam sobre isso. Percebo nos olhares quando entregamos os lanches no intervalo dos trabalhos. Uma fome silenciosa, uma humilhação constante e fugidia.

E o valor do dinheiro, do status, da carreira, tudo ficou relativizado ao conhecer aquelas vidas todas. 10 reais para muitas daquelas pessoas é muito. Para alguns, é a comida para não ser ainda mais humilhado pelo estômago desesperadamente vazio. Mas no fundo, poucos querem realmente sair de lá...todos sonham que a Vila Verde pode ser um bom lugar...

E esse amor que senti por eles é como retribuição, por tudo que me ensinaram nesses quinze dias...coisas que eu tinha a compreensão intelectual, mas que agora estão no meu corpo, dentro de mim como uma marca...

Foi das poucas vezes na vida em que me esquecia, no meio do processo, do resultado artístico que íamos alcançar. Não importa. Na Vila Verde, tudo é tão urgente. Mas a arte ainda assim trouxe um pouco de luz para eles. Sinto também naqueles olhares de fome, a fome de arte.



Escrito por Rodolfo às 20h27
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sensacionalismo

 

Ontem morreu uma das costureiras. Ela já não tinha vindo para a entrevista com elas...

Estava doente. Leptospirose.

MOrreu inchada, 40 kilos a mais. Não cabia no caixão e foi enterrada num saco plástico preto de lixo.

Tristeza geral entre elas. Dizem que era a mais alegre. Criava sozinha 3 filhos que agora vãoficar com o pai que mora noutra cidade.

E eu fico pensando se não faço sensacionalismo quando escrevo isso no blog.

 



Escrito por Rodolfo às 08h13
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O primeiro ensaio na Vila Verde

 

Ontem, finalmente, o primeiro ensaio da Vila Verde.

A maioria já teve parentes assassinados.

A dor de sentir que vai perder um filho e não poder fazer nada.

A pergunta: "A gente pode falar do nosso jeito: "nóis vai"?

Ensinar alguns conceitos básicos mínimos e pedir para eles continuarem sendo quem são e não tentarem modificar seus gestos e modos e vozes.

O olhar deles sobre as esquisitices da classe média: o executivo que só tomava água dos Alpes, a mulher fina que exigia que a empregada desse duas balas de amendoim de manhã e duas à tarde para os cachorros, a viúva solitária que gastava R$ 1.200,00 por mês com o veterinário para seu gato e desprezava os pobres à sua porta.

A dor da violência de pai e mãe: a mãe que enfiava uma agulha debaixo da unha da filha, o menino que foi chicoteado pelo pai e depois jogado em uma banheira de água quente com sal grosso, a avó que controlava o nível do refrigerante quando saía.

A menina que começou a trabalhar na roça aos 3 anos de idade!

O pai que abandonou a mãe, a mãe que abandonou a família, o filho que teve que fugir de casa por sofrer demais, o irmão que morreu, o filho que morreu...o lugar vazio na mesa...

A moeda de troca - cinco reais. Com cinco reais se compra uma pedra de crack...e uma jaqueta novinha, e um tênis importado, um celular, uma tv, um colar, um vestido lindo, uma dúzia de bonés, o corpo de uma menina. Cinco reais, em troca do prazer da pedra.

O silêncio e a angústia dos atores profissionais diante daquele abismo. Nas mesas deles, também há lugares vazios.

 



Escrito por Rodolfo às 06h57
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Vila Verde

 

Eles nunca viram ou fizeram teatro...

E tem uma semana para se preparar...



Escrito por Rodolfo às 08h24
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Os corpos dos atores

 

Os corpos sempre registram a classe social de onde vêm, as idades, os gostos pessoais, as agressões sofridas pela vida, as armaduras de proteção emocional, a fome ou o excesso de zelo...

Os corpos dos atores são treinados nas escolas de interpretação e também tomam formas que são ensinadas.

As vozes também carregam a classe social, as ambições, os traumas, as inseguranças, a violência sofrida. As vozes dos atores também são treinadas em escolas, na busca de perfeita dicção.

Estamos na Vila Verde, e nossos novos atores vão carregar outros corpos e outras vozes, que ainda não forma lapidadas...mas estão cheios de vida. Diferente do público e dos atores tradicionais...



Escrito por Rodolfo às 08h18
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