Spring Awakening
Fui assistir a Spring Awakening na Broadway. É o grande sucesso do teatro americano, alguns até mesmo o chamam de um "marco" e uma "revolução".
Independente de ser um bom espetáculo ou não (tem gente que diz que mataram Wedekind na Broadway), o que mais me impressionou na montagem foi justamente o fato de ela representar exatamente o Zeitgeist deste começo de século.
Quarenta anos depois daqueles cabeludos hippies que cantavam Good morning Sunshine invadirem e tomarem de assalto a Broadway com sua nudez escancaradamente feliz com "Hair", o grande sucesso da Broadway hoje é sobre personagens totalmente diferentes.
Saem os jovens seguros (talvez equivocados, mas seguros) do flower power e entram os adolescentes inseguros, oprimidos por um mundo repressor que não apresenta alternativas. Ao invés da nudez política e afirmativa, uma nudez velada, insegura, envolta pela sensação de pecado e da transgressão.
Dois suicídios: um menino que se mata por não se ajustar, por ser um loser, um perdedor, que é reprovado na escola; e uma menina que engravida do seu namoradinho. Duas relações veladas e abafadas: os meninos numa cena gay e a relação dos adolescentes amantes que gera um filho inesperado.
Nada nesta peça sugere alternativas, soluções, finais felizes. São tempos sombrios e sem luzes no final do tunel. O que vemos são adolescentes frágeis enfiados em um mundo conservador que não admite saídas. Enquanto os jovens de "Hair" protestavam diante da guerra do Vietnam, estes meninos de Spring Awakening nem sabem como se colocar diante do mundo em volta, estão presos em suas escolas e vidinhas e não tem noção do mundo além dos seus próprios problemas pessoais. Eles jamais fariam uma manifestação contra a guerra do Iraque porque nem saberiam como fazer para sair de casa.
Não é à toa que os grandes escândalos agora são comportamentos como o de Britney Spears, uma menina criada no Clube da Disney e que casou e engravidou tão nova...e agora tem uma irmã de 16 anos que também está grávida. Imagine se isto seria uma escândalo de manchetes em 68? Talvez fosse uma notinha de jornal diante de Janis Joplin, Jimmy Hendrix, os Beatles e Yokos e tudo o mais que acontecia naquela época.
Britney Spears está afundando de acordo com o Zeitgeist...como Janis Joplin afundou de acordo com o que os anos 60 traziam.
Chegamos a este ponto: Britney Spears tomou o lugar de Janis Joplin. Cada época tem os escândalos que merece.
Isso significa que:
estamos juvenilizando nossas questões,
estamos cercados por um conservadorismo provocado anos anos 80 pela AIDS e agora pela contra reação ao radicalismo islâmico,
estamos ficando mais inseguros e sem certezas,
estamos com medo de não encontrar nosso lugar no mundo,
estamos frágeis e com medo.
Spring Awakening jamais teria espaço na Broadway em 1968, como Hair seria hoje um grande fracasso na Broadway.
Porisso Spring Awakening, na minha opinião, é tão importante: porque fala muito mais sobre o espírito do nosso tempo do que se possa imaginar. Wedekind, apesar de relido com os olhos da Broadway, é mais atual do que nunca.
Escrito por Rodolfo às 18h58
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A VIDA DOS OUTROS fim
Outra questão levantada pelo filme são as Stasi Akten. Esse é o nome que se dá em alemão aos arquivos guardados pelo serviço secreto da Alemanha Oriental e que hoje estão disponíveis para visitação por qualquer pessoa que fosse espionada pela Stasi (sendo alemão oriental ou ocidental).
É exatamente como no filme: você chega em um departamento do governo, em Berlim, onde estão concentradas todas as informações. Os agentes nunca tinham seus nomes nas fichas, eram sempre usados nomes falsos, para dificultar o vazamento de dados.
Conheci um alemão, de nome Hannes, que foi ver sua ficha. Ele tinha sido um adolescente que trabalhara como agente infiltrado. Ganhava presentes de um espião que era seu contato na Stasi em troca de informações. Em certo momento de sua vida, ele foi descartado. Após a queda do muro, ao ler os seus arquivos, descobriu que, devido a uma série de fatores, ele também era espionado por seu melhor amigo. E foi exatamente esse amigo que o denunciou como fora dos padrões e porisso ele havia sido afastado.
Não é preciso dizer que a vida desse Hannes tornou-se imprestável.
Eu cheguei a ler alguns desses arquivos. Eles tinham fichas inteiras sobre jovens de uma classe, por exemplo. Nessas fichas, eles indicavam dados fundamentais sobre cada aluno de cada classe: situação familiar (estável, instável, instável sem um dos pais), estrutura emocional (frágil, manipulável, correto) e possibilidades de aliciamento (ideologicamente fiel, ambicioso, necessidade de aprovação emocional). Estas fichas eram preenchidas por agentes infiltrados em todas as escolas da Alemanha.
O mundo que Orwell previa existiu verdadeiramente, na Alemanha Oriental.
Escrito por Rodolfo às 18h43
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