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De Olhos Sempre Abertos - vivendo o espanto - Rodolfo García Vázquez


O canal da Crença

A Igreja Universal deu novos rumos aos pentecostais.

E já tem supostamente o canal de expressão das suas crenças para o mundo: A TV Record.

Mas ao invés de difundir as idéias do seu Evangelho em horário nobre, a TV Record faz novelas no mesmo formato da maior das noveleiras, e busca sua superação. Estão até pensando em fazer o primeiro beijo gay na tv brasileira em uma novela da Record! Edyr Macedo está pensando sobre o assunto!

Quem diria! Edyr Macedo pensando sobre um beijo gay?!?!?!

Suas crenças mudaram? Ou será que sempre foram mal interpretadas? A sua crença maior é aparentemente a do desenvolvimento mercadológico capitalista, seja na Igreja, seja na TV.

A Igreja Universal sempre se pautou por parâmetros capitalistas. Defendendo a fé cristã como produto de mercado, exigia dos seus sacerdotes mais do que fé, mas a vocação para arrecadar o dízimo e crescer nos padrões de eficiência e lucratividade. Os pastores têm metas de arrecadação, e os maiores arrecadadores galgam cargos na hierarquia, assumindo funções em igrejas maiores, até se tornarem bispos. E foi com esses parâmetros que se transformou em um grande sucesso empresarial internacional, divulgando a palavra do Senhor dentro de seus critérios de competitividade e eficiência.

A Bíblia também é lida de acordo com as necessidades do mercado. A famosa lei da oferta e da procura. E o que as pessoas procuram: alívio para a solidão, para a doença, confiança para o sucesso, dinheiro, muito dinheiro.

Então é isso o que eles oferecem. Esqueçam-se do arcaico "amar ao próximo como a ti mesmo". Isso não corresponde aos produtos que mais vendem no mercado. Então vamos lá buscar: "Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância." E isso deve ficar bem claro: que a tenham em abundância nesta vida mundana, e não no além.

Está aí a fórmula do sucesso de uma Igreja que não para de crescer, seja no Brasil, seja no mundo. 

A TV caminha para o mesmo sucesso. E esse horizonte já apresenta possibilidades mais que inesperadas. Edyr Macedo e o beijo gay é uma situação prá lá de inusitada.  

****

E os partidos políticos? Se pautam por valores rígidos dos seus programas ou simplesmente por um desejo de poder? 

Todas as críticas feitas ao PT estão baseadas justamente nos atos duvidosos que foram feitos diante da necessidade de manter o poder. Em nome dEle, fizeram acordos com gente que não interessava ao programa do partido. Pelo contrário, eram inimigos.

Diante da realidade, os valores sempre esmorecem, pois são arbitrariedades impostas diante do caos, que pretendemos nos colocar para guiar o mundo. Nietzsche estava certo: a vida é amoral, e nós tentamos através de uma moral ou ideologia assumir o controle sobre ela.

 



Escrito por Rodolfo às 16h11
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"Vá ao Teatro mas não me chame!"

(Dizeres de uma camiseta popular da década de 80, uma piada do Casseta e Planeta)

NUma das discussões das Satyrianas, falávamos dos políticos, uma classe atrasada, sem cultura, sem noção do que seja arte, corrupta, blábláblá...Tinhamos combinado que não faríamos um lamento (tão típico da nossa classe), mas o ódio contra os políticos, essa entidade quase supranatural, foi inevitável, como sempre.

E já vi muito disso: dividimos a sociedade brasileira dessa forma - os políticos lá, e nós sociedade civil e artistas, aqui.

Mas esquecemos de algo fundamental. Os políticos são nossos representantes. Eles têm famílias, vizinhos, amigos, filhos, passado. Eles pertencem a essa sociedade que é atrasada, sem cultura, sem noção do que seja arte, corrupta.

Eles nada mais são do que a manifestação da nossa sociedade e não uma aberração que assumiu o poder em um país de cidadãos respeitáveis, honestos e amantes das artes e do teatro.

Se eles estão no poder e nunca foram ao teatro, é por que a maioria da população não dá a mínima para o teatro. Se eles pensam que teatro é um passatempo futil, é porque muitos na sociedade civil também pensam isso.

Cabe a nós, artistas, assumirmos também a função pedagógica de mudar mentes e atitudes. E esse é o desafio da gente do teatro brasileiro: não só fazermos arte, mas educar e aumentar o espaço dado ao teatro.

Já ouvi comentários jocosos da classe teatral sobre o fato de Os Satyros sair em colunas sociais. Eu acho, ao contrário, que nós deveríamos ter orgulho disso. O Gero Camilo na coluna da Mônica Bergamo é uma conquista do nosso teatro, e não uma vergonha. Uma festa como a Satyrianas, com mais de 30.000 pessoas (muito mais!) é uma vitória do teatro, e não do nosso grupo. Vinte anos atrás existia uma camiseta com os dizeres: "Vá ao Teatro". O Casseta e Planeta, tirando sarro, fez outra, que fazia muito mais sucesso: "Vá ao Teatro mas não me chame!". Eu comecei minha carreira vendo gente na rua usando essa camiseta.

Hoje, graças ao trabalho de muita gente, de um movimento teatral forte e consistente, uma camiseta dessas não teria o menor apelo. Ao contrário, muitos jovens hoje preferem o teatro experimental ao cinema. São público fiel.

Se pegarmos o exemplo alemão, por exemplo, lá existe toda uma cultura de louvação ao teatro. O teatro é, assumidamente para toda a sociedade alemã, uma manifestação de cidadania. E o governo, consequentemente, tem uma política clara de apoio ao teatro.

No nosso caso, temos que fazer o nosso trabalho estético, lutar pela sobrevivência e ainda criar uma pedagogia do teatro para toda uma sociedade e consequentemente uma classe política.

Temos consciência do desafio...



Escrito por Rodolfo às 13h03
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Relógios e caveiras

 

Momento interessante.

Marcelo Coelho escreveu em sua coluna de ontem na Folha que a sociedade brasileira está, neste momento, apresentando manifestações de identidades, e não de proposições para o aperfeiçoamento social. Porisso estaríamos vivendo um retrocesso.

É interessante porque antes de ontem assisti ao Tropa de Elite, e fiquei refletindo exatamente sobre isso. Mas ao invés de pensar o assunto pelo viés negativo do Coelho, pensei pelo viés positivo.

O que faz falta à sociedade brasileira é justamente discutir as identidades. É vir a público e falar:

- Sou rico, pago meus impostos, e fiquei indignado ao ser assaltado (como fez o Huck).

Ou ainda: 

- Sou pobre, tenho que roubar, e fiz o favor de roubar sem matar o rico (como defendeu o Ferréz no artigo dele).

Ou ainda:

- Sou policial, odeio a classe média hipócrita, odeio o traficante, odeio o sistema corrupto da polícia, e meto bala sem querer saber de direitos humanos porque senão não sobrevivo (como o filme deixa explícito).

O grande problema do Brasil sempre foi justamente esse: as identidades ficavam diluídas nos pactos sociais "amigáveis" da nossa sociedade. O negro nunca era chamado de negro, mas de "moreno". E isso impedia o surgimento de uma consciência negra. O evangélico vivia como um cristão um pouco diferente. O rico não se assumia como rico, mas como alguém "de bem". 

Ao assumir o que realmente são, estas identidades tornam mais complexa e conflituosa a percepção da realidade brasileira. O "Tropa de Elite" acaba sendo um canal de manifestação não apenas para essa parcela da população (a polícia) que sempre foi tratada como um clichê. E no final, torna-se o espaço para a manifestação de um ódio e de uma revolta social maior. Ao tratar os jovens de classe média como clichês, assim como trata os moradores da favela como clichês, traficantes como clichês e políticos como clichês, os policiais são os únicos que tem alguma identidade, os únicos que apresentam diferenças entre si e têm perspectivas de mundo. Mas não é exatamente assim que pensam os policiais?

E o público (de todas as classes), apesar de ser representado como um clichê na tela, está adorando o filme!

Não gosta dele apenas pelas suas qualidades (muitas no estilo hollywoodiano) como filme, mas principalmente porque vê um Dirty Harry incorruptível que faz a justiça com as próprias mãos. Ele não é corrupto diante do "sistema", mas mata contra o outro sistema (legal).

O Capitão Nascimento é o Vingador de uma sociedade desesperada por uma solução que, diante desse "sistema", só vê uma alternativa: matar.

A polêmica do relógio de Luciano Huck e da resposta de Ferréz é fundamental, pois apresentam perspectivas para um mesmo fato. O filme Tropa de Elite também. E é assustador, pois ao revelar o ódio fundante de uma das identidades pouco visíveis da sociedade brasileira, nos faz refletir mais sobre quem somos como um todo. Suas proposições são fascistas mas representam algo que pulsa sob a superfície: nosso desejo de que o estado de brutalidade em que vivemos cesse o quanto antes, pois já atingiu níveis insuportáveis. Somente a partir das percepções de diferentes identidades e das tensões entre elas, podemos buscar um verdadeiro pacto social.

 



Escrito por Rodolfo às 09h46
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O que é a estética do Satyros?

 

Então uma jornalista perguntou ao Ivam:

-Mas vocês não têm medo de que a revitalização da Praça e a Satyrianas ofusquem o trabalho estético de vocês?

Essa é uma pergunta que já nos fizemos. Não por nós, mas pela maneira limitada como se percebe a estética.

No caso da revitalização, estamos falando de uma verdadeira inversão teatro x cidade. A interferência de um teatro no seu entorno não é uma opção estética? A arte invadir a rua assim como a rua sempre invadiu o palco, não é isso uma subversão estética?

As Satyrianas não são um festival de teatro como outros que existem. As Satyrianas propõem uma série de questões que também são estéticas. Não temos um ingresso fixo. Portanto, quem decide o valor de um espetáculo é o espectador. E qual seria o valor justo, em uma sociedade como a nossa? E como se comporta a consciência social e artística do brasileiro? Um espectador chegar em uma bilheteria da Roosevelt e oferecer 10 centavos pelo ingresso com a cabeça erguida significa o que? Para alguém da periferia, seria talvez o preço justo do ingresso. E para alguém da classe média não seria o profundo desprezo deles para cima de nós, artistas brasileiros? O fato de aceitarmos perder este jogo significa que pretendemos, ao final de muitos anos, ganhar o campeonato e despertar, de alguma forma, a consciência desse público. A festa do teatro significa também esquecer desse desprezo e seduzir o espectador para depois transportá-lo para outro nível de consciência do significa do teatro para a sociedade.

E o Dramamix, que promove um encontro entre universos tão distintos quanto a Adriane Galisteu e o Gerald Thomas e o escritor anônimo de 20 anos de idade? O que propõe um evento desses? Não seria justamente a quebra de barreiras entre artistas e a busca de uma superação das mesmas em prol de algo maior, que é o teatro?

Não, nossa estética não é obscurecida pela revitalização da Praça e pela Satyrianas. Ao contrário, elas fazem parte da nossa estética. Não somos máquinas produtoras de espetáculos teatrais em salas fechadas com técnicas de criação fechadas hermeticamente em um programa estético imutável, somos um grupo de artistas velozes que intervem e propõe novos paradigmas. Se vão demorar para ser compreendidos estes novos paradigmas do que é o teatro, do que pode ser a ágora contemporânea chamada teatro, não é uma questão nossa. O tempo vai se encarregar de esclarecer isso. 



Escrito por Rodolfo às 09h16
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