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De Olhos Sempre Abertos - vivendo o espanto - Rodolfo García Vázquez


As costureiras

Fico sabendo que o Jornal REgional da Globo em Curitiba fez uma matéria com as costureiras da Vila Verde.

Anuncia as lindas sacolas ecológicas delas e como elas têm trabalhado bastante.

Uma das moradoras da Vila Verde, depois da nossa peça, foi convidada a participar de outro espetáculo.

Esperança.



Escrito por Rodolfo às 19h04
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Início de Liz...

 

Outra viagem louca na vida: vamos para Cuba, com um texto cubano, com uma atriz cubana que quando vivia lá era um menino bailarino.

Reconhecer nas tramas da ilha britânica de Reinaldo Montero a ilha do Caribe onde ele nasceu.

Reconhecer em nós a nossa ilha.



Escrito por Rodolfo às 09h20
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O caso Isabella

 

A mulher chora ao ver na porta de uma casa qualquer da zn, o pai e a madrasta suspeitos no caso Isabella. Ela própria vítima de abuso na infância, dos mais variados tipos. Ela chora ao se lembrar como era impotente diante daquele pai tirano, daquela mãe cruel, daquele tio que a violou no sigilo das tardes tranquilas. E ela grita: "Assassinos!", grita com uma força descomunal, como nunca, como ela não pôde gritar quando era criança e vivia em terror.

Ao lado dela, um homem bem mais velho chora também, pela violência que também sofreu...o pai que deixou marcas em seu corpo quando ele tinha 5 anos de idade, com chicote, e que perduram até hoje por baixo da camisa puída. Ele também grita "Assassino" quando os suspeitos passam, e vê no rosto deles o rosto do próprio pai que, falecido, já não poderia ouvir os seus gritos...

Nas escolas, hoje, as crianças estão todas pensando em seus pais violentos e na sua impotência diante deles...e fantasiam até que ponto esses pais e padrastos e mães e madrastas poderiam ir diante de suas fragilidades. Teriam a coragem dos suspeitos?

Nâo, não foi a mídia que convocou essas pessoas para irem até aquela casa da ZN que, por sinal, fica a menos de 100 metros da casa dos meus pais. Também não foi a revolta com os políticos, com Brasília, com o Bush...

Foi algo muito mais próximo e terrível, algo muito mais concreto e muito mais pavoroso para essas pessoas: a crueldade dos que as alimentaram e beijaram na infância, que lhes deram seus nomes e lhes pediam respeito.

E são tantas as histórias, tantas. Histórias que acabam sendo enterradas diante das biografias das famílias, como se enterram todas as vergonhas de todas as famílias, das primas putas, dos tios alcoólatras, dos fracassados...mas que deixam marcas silenciosas muitas vezes insuportáveis, para toda a vida.

Debaixo do teto onde deveriam ter conforto e paz, dentro do carro do papai que deveria ser o lugar mais seguro da terra, no quarto cheio de brinquedos que deveria ser um espaço lúdico e prazeiroso, na janela com a vista tão cotidiana, nesses lugares tão familiares, vive acontecendo diariamente o terror para muita gente, muita muita gente.

Isabella é um pouco de da história de todos aqueles que sofreram, sofrem e sofrerão nas mãos de quem os ama, sem ter o direito de se defender.

E são muitos, muitos, muitos aqueles que estão acordando durante a noite com o rosto de Isabella na mente...com o medo do retorno à infância do horror. 

 

 



Escrito por Rodolfo às 22h23
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Painel do Leitor

 

Segue a carta que dirigi à Redação da Folha de São Paulo e que foi, parcialmente, publicada hoje no Painel do Leitor:

 

Teatro
"Fiquei chocado com o editorial "Aperfeiçoar a Lei Rouanet" (Opinião, 6/4). Pensei que a Folha soubesse dimensionar a aberração da referida lei.
É óbvio que existem espetáculos que são viáveis financeiramente e não precisariam dessas leis. Mas então por que justamente eles são os maiores beneficiados pela isenção fiscal?
O risco de manipulação ideológica de verbas caso a Lei Rouanet fosse extinta ignora que a própria lei já manipula verbas por meio dos departamentos de marketing das empresas. São pessoas de marketing os verdadeiros vetores ideológicos da cultura brasileira da última década!
Alegar que a Lei Rouanet é adequada como parte de uma política cultural é desmerecer a cultura, atitude típica da nossa sociedade, que encara a arte como algo secundário e fútil.
O absurdo da lei pode ser constatado da seguinte forma: e se as leis de isenção fiscal fossem aplicadas a outras áreas, como saúde, educação e transportes? Quais seriam as conseqüências dessa política de governo? Quais projetos aprovados pelo Ministério de Saúde seriam privilegiados pelos benefícios das empresas senão aqueles de hospitais dirigidos aos consumidores dessas próprias empresas? Quais os projetos de escolas que receberiam os patrocínios das empresas? Sem falar nas estradas.
Quem, em sã consciência, delegaria a um gerente de marketing as decisões sobre os investimentos em saúde e em educação?"
RODOLFO GARCÍA VÁZQUEZ, do grupo teatral Os Satyros (São Paulo, SP)



Escrito por Rodolfo às 16h18
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acredito no poder do teatro...e no poder do cuco

 

A minha biografia da juventude foi marcada por dois agentes poderosos: o teatro e o relógio cuco.

Vivia na casa dos meus pais, 19 anos, estudante da USP e da GV (paradoxo que depois revelaria minhas essências). Meu pai chega do escritório e exaltado reclama: "Quem mexeu no relógio! Parou!" Era um relógio muito antigo, herança de família, e que só funcionava à corda.

"Não precisa gritar...era só um relógio." - respondi no auge da minha rebeldia adolescente.

"Enquanto você morar aqui, vai ter que entender que a casa é minha e eu grito quanto eu quiser na minha casa." - respondeu meu pai.

Duas semanas depois eu fui embora. Eu tinha pressa de viver a vida, não queria perder tempo, fosse com meu pai, fosse com um relógio. Comecei a me sustentar dando aulas de inglês e espanhol. E passei maus bocados. Em dois anos, vivi em mais de dez repúblicas de estudantes com pessoas de todos os tipos e cores. Aprendi de tudo um pouco e, principalmente, a me virar sozinho. 

Às vezes, penso o que teria sido de mim se não tivesse sido o fato banal daquele relógio antigo ter sido mexido por um desavisado: teria ficado até que idade na casa dos meus pais? que outras experiências eu teria vivido? em que pessoa eu teria me transformado? talvez eu tivesse casado???

O cuco mudou a minha vida?

E no meu aniversário deste ano, ganhei finalmente um cuco. Um cuco meu!!! O passarinho de madeira sai da casinha de meia em meia hora e faz aquele som típico. É alemão legítimo. E dá vontade de rir da esquisitice. Mas eu adoro.

E o interessante é que sou obrigado a puxar suas correntinhas de ferro todos os dias, pelo menos duas vezes por dia. Caso não faça isso, ele pára de dar o ar da graça e saltitar prá fora da casinha...o Tempo pára prá ele.

Então, me esforço para não me esquecer dele e nem do Tempo. E toda vez que eu puxo as correntinhas, tenho uma leve sensação de que sou senhor do Tempo. O Tempo daquele cuco depende de mim. Uma sensação de um semideus idiota.

Também não sinto a pressa que tinha aos 19 anos (apesar de ainda hiperativo). E acho relativa a expressão "perder tempo". E estou em paz com meu velho. E volto a ver, com uma paz meio nostálgica, na cozinha do meu apê, o cuco da minha infância.

Afinal, acredito no poder do teatro, mas não posso negar nunca o poder do cuco, jamais...Um cuco pode mudar muitas vidas também.



Escrito por Rodolfo às 19h07
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O poder do teatro?

 

Acho que o Sálvia quis me desafiar com o seu "ou não". Aceito o desafio de falar um pouco mais sobre o que eu entendo como o poder do teatro.

O Leandro Knopfholz, "inventor" do Festival de Curitiba, sempre conta essa história. Molecão, ele foi assistir "New York de Will Eisner", do Edson Bueno, em Curitiba. Nâo tinha nem 20 anos. Ficou tão empolgado com aquilo que viu que teve a idéia do Festival de Curitiba.

Hoje, o Festival de Curitiba envolve números gigantescos e tem filas homéricas. Movimenta dinheiro e agita a cidade de 2 milhões de reais. A peça de Edson Bueno nunca mais voltou ao cartaz depois daquele início de anos 90, mas sua importância não ficou restrita ao deslumbramento do seu público. Teve efeitos de longo prazo, culturais, políticos e econômicos.

Eu, quando larguei a administração, pensava em fazer teatro mas não sabia exatamente o que poderia ser. Não conhecia teatro direito. Então fui fazer pós. E estudei um grupo que naquele momento praticamente estava inativo: o Oficina.

Durante dois anos na USP, estudei o teatro dos anos 60 e o Oficina. As transformações estéticas, o teatro de grupo, a radicalidade, a diáspora em função da ditadura. Foi inspirado naquele teatro que eu nunca assisti que tentei criar a minha trajetória como artista.

Quando nos sugeriram a montagem de "A Filosofia na Alcova", início dos anos 90, Paula Madureira, a nossa iluminadora, dizia: "Duvido que vocês tenham coragem de montar isso."

E só por sabermos que antes houvera "A Vida de Galileu", "Roda Viva", "Gracias Señor" e "O Rei da Vela" foi que tivemos coragem de enfrentar o desafio. Se os palcos do Brasil já tinham visto ousadias, aquela poderia ser uma nova ousadia para um novo tempo.

O Leandro e eu somos provas de que biografias podem ser mudadas pelo teatro. E se as biografias microscópicas podem ser mudadas, a sociedade pode ser mudada.

O Teatro Oficina não deixará marcas apenas na lembrança dos seus espectadores, mas no imaginário social, nas formas estéticas, em gerações futuras. O Oficina deixará suas marcas em tantas biografias, como a minha...Assim como os grupos mais novos, como Vertigem, os Parlapatões, o Cemitério de Automóveis, os Satyros, e tantos outros, deixarão marcas para o futuro.

Esses grupos e seus artistas estão propondo novas formas de ação teatral e de intervenção com novos parâmetros para o entendimento da nossa sociedade. E certamente muitas outras biografias serão mudadas.

Somente por causa dessa crença continuo acreditando com tanta força no poder da arte. E na responsabilidade do que fazemos. 

 



Escrito por Rodolfo às 09h45
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Final de A Fauna

 

A homenagem que eles nos fizeram foi uma das sensações mais loucas que senti na vida. Era um transbordamento de afetos, de apreensões, de medos pelo futuro, de esperanças.

Eu não conseguia abraçar todos e demonstrar todo o agradecimento que sentia pelo que eles haviam me ensinado. Era como se as emoções fossem maiores do que eu, muito maiores, e eu não pudesse vivenciar todas elas... Foi um momento dionisíaco, na maneira como entendo dionisíaco - dor, muita dor, transbordamento, tontura, perda de limites, pavor, espanto, tesão, entrega ao rio das emoções e prazer...mas o prazer é pouco diante de tudo o mais que veio junto. O trágico dionisíaco.

A música ensaiada por eles, os figurinos, as criancinhas segurando as placas, os olhos, as vozes embargadas, os presentes, a mesa farta (!!! - farta!!! - eles abriram mão de dinheiro que eles precisavam para organizar uma mesa farta, cheia de salgados, bolos e sanduíches!!!)...

Saí de lá certo de que o teatro é poderoso. Muito mais poderoso do que uma simples sala de espetáculo, muito mais poderoso do que ações de governos, muito mais poderoso do que a violência e a injustiça, muito mais poderoso do que a miséria.

Vivemos, nesse mês, no olho do furacão. O furacão do poder do teatro. Um pleno transbordamento dionisíaco.

 



Escrito por Rodolfo às 11h43
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Luz e sombra

O mundo como uma sinfonia de sons e silêncios, luzes e sombras...

Sempre busco ver as pessoas e as situações dessa forma.

Os silêncios da Vila Verde me intrigaram. E são tantos. Estávamos tão apaixonados que não ouvíamos o que os silêncios tinham a dizer. Os sons eram muito poucos mas tão calorosos, era quase um show do John Cage tudo.

E agora que alguns novos silêncios chegaram aos meus ouvidos, bateu o medo pelo que poderia ter acontecido se....

Fomos ousados demais.

 



Escrito por Rodolfo às 01h45
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Retorno à Vila Verde...

Dois dias após o caos de Vestido, retorno à Vila.

As ruas me parecem mais íntimas. Em Curitiba, é lá que me sinto em casa.

E mais um assassinato: uma menina de 9 anos, nóia.

O choque cotidiano toma o lugar do choque pânico.

Está se aproximando o fim.



Escrito por Rodolfo às 09h07
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Frases de entrevistas

 

"Tanto se fala de inclusão social, mas não se fala de inclusão teatral. Será que o teatro não deve abrir espaço para quem nunca pôde fazer teatro?"

"O teatro geralmente é feito por quem faz dieta o tempo todo para quem faz dieta de vez em quando. E os que passam fome não têm direito a fazer e assistir teatro?"

"...dramatário...um teatro documentário?"

"nós somos heróis na Vila Verde. Nós aceitamos o convite sem saber o que ia acontecer. Agora estamos aqui."

"Vocês não têm medo de que depois dos Satyros irem embora, vocês fiquem abandonados?"

"Medo por que? A gente tem que ter medo da polícia, de madrugada."

 



Escrito por Rodolfo às 12h33
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Poesia brutal de uma criança

 

"Gente morre aqui feito água."



Escrito por Rodolfo às 11h55
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Mortes na Vila Verde...

 

Na semana passada, a costureira que morreu.

Ontem, o homem que foi assassinado a facadas por um prato de comida.

Esta madrugada, o menino (ficante de uma das atrizes), assaltante de taxi, linchado e morto por taxistas.

Hoje à tarde, o menino atropelado e morto pelo ônibus...e o motorista linchado...

 

Mesmo assim, a vida continua...e as voluntárias a funkeira continuam chovendo.



Escrito por Rodolfo às 02h10
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Aprendizado...

 

Hoje, quando vinha de Curitiba para São Paulo, eu fui tomado de uma espécie de loucura de amor...amor por aquelas pessoas da Vila Verde.

São tantas, mas tantas coisas acontecendo, tantos relatos, tanto drama, tanta dor. Eu sinto necessidade de registrar no blog, de não me esquecer jamais de tudo aquilo. Mas fico constrangido por não conseguir alcançar a dimensão plena dos fatos. A filha torturada pelo pai, o filho imerso em uma banheira de água quente e sal com seu corpo ensanguentado, os filhos assassinados, as crianças oferecidas pelos pais, o medo dos traficantes, os assassinos de sorriso simpático e inteligente, a solidariedade e a mesquinhez.

Aprendi coisas que anos de sociologia na USP, de filosofia autodidata e de psicanálise claudicante só tinham me passado como abstrações teóricas. A luta de classes, a miséria nacional, as injustiças do nosso país, tudo isso eram categorias às quais eu me apegava e através das quais eu entendia o mundo. Hoje, elas são uma realidade absurda diante dos meus olhos.

Senti na pele todas aquelas histórias e aprendi que a humanidade pode adquirir dimensões gigantescas na Vila Verde, seja na miséria, na fome, na morte, no abandono, na humilhação total.

E acho que o que aprendi, essa coisa que entrou na minha pele, me faz repensar o mundo e as coisas, o teatro e a política, o pior lado do homem e o mais sublime. Sim, mesmo naquele caos, além do horror, o sublime aparece e de forma luminosa...uma luz incrivelmente forte e ofuscante.

Andei pelas ruas com o Jessé, um dos líderes da comunidade, e pedia a ele que me contasse um pouco da história do lugar. E as histórias eram só de morte. Por todas as casas, por todos os cantos, mortos e mais mortos. Canudos não é tão longe assim. É incrível a quantidade de pessoas que foram assassinadas por lá. Todos têm alguém na família que morreu brutalmente. Linchamentos também acontecem ainda hoje. Pessoas ainda morrem apedrejadas. E pela primeira vez eu entendi o que significa um linchamento. "O rosto fica desfigurado, e o cara fica ali agonizando horas na frente dos outros".

É incrível a quantidade de pessoas que passaram fome,e os relatos que eles me fizeram da fome foram assombrosos. "Chegou um momento que eu pensei que não ia suportar." Mas como ela conseguiu suportar, se não foi através da força e do espírito indomável de sobrevivência da Humanidade? 

Em alguns momentos, eu sentia que perdia o chão, no meio das entrevistas. Eu queria parar e esquecer tudo o que eu ouvia. "Minha mãe me abandonou como uma cadela...mas nem uma cadela faria com os filhotes o que ela fez comigo." Eu não queria ter ouvido isso, no meio de lágrimas infinitas.

Era como se eu estivesse sendo apresentado a algo que está além da minha compreensão.

Alguns, disfarçadamente, ainda passam fome, mas a vergonha esconde a fome. Sinto isso no meio dos ensaios...mas eles não falam sobre isso. Percebo nos olhares quando entregamos os lanches no intervalo dos trabalhos. Uma fome silenciosa, uma humilhação constante e fugidia.

E o valor do dinheiro, do status, da carreira, tudo ficou relativizado ao conhecer aquelas vidas todas. 10 reais para muitas daquelas pessoas é muito. Para alguns, é a comida para não ser ainda mais humilhado pelo estômago desesperadamente vazio. Mas no fundo, poucos querem realmente sair de lá...todos sonham que a Vila Verde pode ser um bom lugar...

E esse amor que senti por eles é como retribuição, por tudo que me ensinaram nesses quinze dias...coisas que eu tinha a compreensão intelectual, mas que agora estão no meu corpo, dentro de mim como uma marca...

Foi das poucas vezes na vida em que me esquecia, no meio do processo, do resultado artístico que íamos alcançar. Não importa. Na Vila Verde, tudo é tão urgente. Mas a arte ainda assim trouxe um pouco de luz para eles. Sinto também naqueles olhares de fome, a fome de arte.



Escrito por Rodolfo às 20h27
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sensacionalismo

 

Ontem morreu uma das costureiras. Ela já não tinha vindo para a entrevista com elas...

Estava doente. Leptospirose.

MOrreu inchada, 40 kilos a mais. Não cabia no caixão e foi enterrada num saco plástico preto de lixo.

Tristeza geral entre elas. Dizem que era a mais alegre. Criava sozinha 3 filhos que agora vãoficar com o pai que mora noutra cidade.

E eu fico pensando se não faço sensacionalismo quando escrevo isso no blog.

 



Escrito por Rodolfo às 08h13
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O primeiro ensaio na Vila Verde

 

Ontem, finalmente, o primeiro ensaio da Vila Verde.

A maioria já teve parentes assassinados.

A dor de sentir que vai perder um filho e não poder fazer nada.

A pergunta: "A gente pode falar do nosso jeito: "nóis vai"?

Ensinar alguns conceitos básicos mínimos e pedir para eles continuarem sendo quem são e não tentarem modificar seus gestos e modos e vozes.

O olhar deles sobre as esquisitices da classe média: o executivo que só tomava água dos Alpes, a mulher fina que exigia que a empregada desse duas balas de amendoim de manhã e duas à tarde para os cachorros, a viúva solitária que gastava R$ 1.200,00 por mês com o veterinário para seu gato e desprezava os pobres à sua porta.

A dor da violência de pai e mãe: a mãe que enfiava uma agulha debaixo da unha da filha, o menino que foi chicoteado pelo pai e depois jogado em uma banheira de água quente com sal grosso, a avó que controlava o nível do refrigerante quando saía.

A menina que começou a trabalhar na roça aos 3 anos de idade!

O pai que abandonou a mãe, a mãe que abandonou a família, o filho que teve que fugir de casa por sofrer demais, o irmão que morreu, o filho que morreu...o lugar vazio na mesa...

A moeda de troca - cinco reais. Com cinco reais se compra uma pedra de crack...e uma jaqueta novinha, e um tênis importado, um celular, uma tv, um colar, um vestido lindo, uma dúzia de bonés, o corpo de uma menina. Cinco reais, em troca do prazer da pedra.

O silêncio e a angústia dos atores profissionais diante daquele abismo. Nas mesas deles, também há lugares vazios.

 



Escrito por Rodolfo às 06h57
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