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De Olhos Sempre Abertos - vivendo o espanto - Rodolfo García Vázquez


O Comum

Negri e Hardt debatem a nova categoria do estar-no-mundo: o comum.

O comum não é nem o público nem o privado. O público de fato pertence ao governo, à instituição tão distante de nós.

O privado pertence ao foro íntimo, que não se deve ou se quer repartir com o outro.

O comum é aquilo que eu e você criamos juntos, um espaço de comunicação, de criação de significados, de redimensionamento dos ideais políticos, de expressão.

O comum é criado pelos anônimos que não conseguem se expressar pelos canais convencionais do público, tão distantes, mas que se sentem de alguma forma unidos.

A Praça Roosevelt é exemplo desse espaço comum, construído por todos nós, cheia de significados que vão além dos símbolos reproduzidos e vendidos pela indústria cultural. Comum a todas as pessoas da cultura, do teatro, da reflexão crítica.

A Satyrianas é esse tempo-espaço comum, onde criamos e expressamos para além dos clichês que constroem nossa visão de mundo, onde suspendemos as categorias tradicionais em que o Império nos equaliza e buscamos a revitalização dos nossos caminhos na arte.

Nós, no Satyros, lutamos por uma arte comum...por uma arte que construa essa multidão com identidade e desejos próprios, carnalmente constituída.

Essa arte comum só é possível no âmbito da troca, da presença, do corpo. Corpo cheio de significados novos e prontos para se expressar no mundo esteticamente, em uma forma nova, que só é possível no aqui-agora.



Escrito por Rodolfo às 18h59
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Irã, twitter, muçulmanos e preconceitos...

Pensando no Irã: a primeira revolução twittada do planeta acontece num país muçulmano...chega de estereótipos!

Quando conheci palestinos num projeto que dirigi, ficou claro prá mim: a imprensa ocidental alimenta estereótipos. As tvs só mostram homens barbudos radicais e mulheres cobertas de mil véus lamentando a morte de seus filhos.

O Islam é muito mais do que isso...Eles têm uma cultura milenar, uma sabedoria própria e milhares de diferenças entre eles e milhares de problemas.

Não...não significa aprovar o que os seus regimes fazem com as mulheres nem com os homossexuais. Nâo significa calar diante dos ataques suicidas.

Mas entender que eles são muito mais complexos do que as imagens que vemos, que as sociedades islâmicas são cheias de sutilezas e de pessoas inteligentes e sensíveis também.

E o mundo agora vê, pasmo, os muçulmanos iranianos twitando, se organizando virtualmente, propondo revoltas públicas...

O tempo é de mudança também para eles...

E a Revolução Chinesa? Também virá do twitter?



Escrito por Rodolfo às 13h05
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O teatro e a democracia fedem...

 

- Os conceitos de democracia e de teatro surgem como contemporâneos não por acaso. A Grécia antiga em seus festivais de teatro reunia famílias de todas as classes, que faziam lindos pic-nics enquanto assistiam aos espetáculos a céu aberto... 

- Paroni fala lindamente sobre: os analfabetos espectadores do Globe Theatre influem mais na estéttica de Shakespeare do que muitos acadêmicos gostariam. O Globe era o local dos populares, dos bêbados de cerveja, dos animais...de todos..

-  No tempo das realidades virtuais, da internet, das comunicações globais, os humanos anônimos precisam de fisicalidade novamente, recuperar a tribo...o teatro, drama primitivo, é absolutamente necessário e urgente. O teatro e seu fedor.... 

-

 



Escrito por Rodolfo às 13h13
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Pesquisas comprovam: a democracia fede...

Alguma dessas universidades americanas fez pesquisas para avaliar a relação entre odores e conservadorismo.

Chegou à conclusão, depois de testar muita gente, que pessoas que tinham uma aversão muito grande a cheiros exóticos e corporais (urina, fezes, suores, etc), eram na grande maioria conservadores em suas posições políticas.

Tem sentido: a democracia fede. Ela sempre traz a diferença, o outro e seus cheiros. Ser um democrata significa estar disponível para experimentar o suor dos outros, os fedores, os aromas desagradáveis da vida real.

Exemplos: a Alemanha nazista não cheirava a nada. Os desfiles nazistas, registrados por Leni Riefehnstal deixam isso evidente. Naquelas imagens os corpos de homens e mulheres negavam a sua própria condição animal e eram alçados a ídolos de carne. Tudo era higienicamente controlado naquele mundo que lutava pela perfeição das suas formas. Até as câmaras de gás eram pensadas como uma forma limpa de extermínio. Uma contradição brutal.

Tenho medo também do teatro higiênico demais. O teatro muito limpo, muito exato, muito controlado, muito perfeito em suas formas e objetivos. Esse tipo de teatro transpira um suor asséptico, distante, quase ideal.

O teatro dos Satyros tenta, o tempo todo, dialogar com a rua, com seus cheiros, com suas mazelas fedorentas. E tudo isso é carregado para o palco. Através de atores nem sempre tecnicamente perfeitos, muitos que nunca estudaram em uma escola de teatro regular. Mas que trazem em seus corpos experiências de vida contundentes e fedidas...perfeitas na sua imperfeição.

 



Escrito por Rodolfo às 15h11
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A covardia

Cowards die many times before their deaths
The valiant never taste of death but once,
Of all the wonders that I yet have heard,
It seems to me most strange than men should fear;
Seeing that death, a necessary end,
Will come when it will come

William Shakespeare, Julius Caesar, Ato Dois, Cena Dois

Covardes morrem muitas vezes antes de sua morte,

Os valentes nunca provam da morte mais de uma vez,



Escrito por Rodolfo às 16h49
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Do vazio

Do vazio nasce o teatro.



Escrito por Rodolfo às 13h41
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Comentários revoltados...

A velha atriz milionária diz que hoje em dia só é possível produzir monólogos no teatro.

O crítico diz no grande jornal o que ele acha que os dramaturgos de uma ilha isolada devem escrever.

Eu  pasmo.



Escrito por Rodolfo às 10h27
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Amigos

 

Aprendi a ser traído pelos amigos e aprendi a continuar a acreditar na amizade, ainda que frágil e relativa.

Isso não me tornou amargo. Só fez o meu amor pela humanidade tornar-se mais complexo.

 



Escrito por Rodolfo às 22h05
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A Visita Ao Cervantes

Hoje fui ao Instituto Cervantes, ver a leitura do Fausto do Reinaldo Montero.

Na entrada, uma exposição de cartazes da época da Guerra Civil Espanhola.

Fiquei pensando que enquanto aqueles cartazes eram produzidos, de forma artesanal, meus avós se casavam, meu tio nascia, minha avó andava grávida da minha mãe entre as barricadas nas ruas de Madrid.

Depois anos e anos de sacrifícios e fome. E um novo casamento dos meus avós. O padre que os havia casado tinha sido assassinado na guerra e a certidão de casamento havia se perdido.

As histórias da minha avó traçavam uma trajetória cheia de aventuras na minha imaginação infantil. "Guardávamos as cascas das batatas para comê-las no sábado." "Quando tinha que buscar leite para o teu tio, atravessava os tiros das barricadas, com a tua mãe na barriga." "Teu avô teve que se fingir de inválido para poder sair do exército. Isso o salvou."

Me lembro também de passar a mão na canela dele. "Aqui está a bala que me acertou durante a guerra." Ele carregava esse osso entortado pela bala como um grande troféu...uma medalha de heroísmo.

"O pior é sempre depois da guerra" dizia a minha avó recentemente, quando ainda conseguia se lembrar do passado.

Aqueles cartazes me lembraram tempos difíceis, de insegurança e medo, de amor à vida e terror da morte, que ficaram marcados na minha família e chegaram, de alguma forma obscura, em mim.

 



Escrito por Rodolfo às 00h30
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O Segredo do Teatro

 

O Segredo do Teatro é a mística de sua matemática.



Escrito por Rodolfo às 15h58
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A solidariedade dos homens e mulheres perfeitos

HOmens e mulheres perfeitos são solidários, preocupados com os outros...

Por exemplo, com as inundações de Santa Catarina...afinal, como é triste ver aquelas crianças loiras de olhos azuis chorando a falta de suas casas.

Uma mulher perfeita chegou a dizer: "Eu mandei mais de cinco cobertores velhos que eu tinha em casa, e comprei latas e latas de leite em pó. Mandei tudo. Eu vi o pedido de solidariedade feito pela Globo e não me contive. Acho tudo tão triste. O aquecimento global está acabando com o nosso planeta."

Homens e mulheres perfeitos também se compadecem com as vítimas do Norte e Nordeste. São inundações também calamitosas. Igualmente calamitosas.

Mas eles parecem que não vão se mexer muito para mandar alimentos para as crianças morenas, de cabelo castanho crespo e olhos profundamente negros.

A Globo não mandou nem um pedido de solidariedade, e é tão longe...e eles não sabem como fazer. Além do quê, já ajudaram tanto nas inundações de Santa Catarina, que os cobertores velhos já foram todos.

Homens e mulheres perfeitos já fizeram a sua parte.



Escrito por Rodolfo às 11h01
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Homens e mulheres perfeitos

Homens e mulheres perfeitos têm uma família que segue a declaração Universal dos Direitos do Homem, seguem as indicações da Unesco, da OMS, das médicos.

Homens e mulheres perfeitos fazem terapia para resolver seus problemas.

Homens e mulheres perfeitos são ecologistas (não radicais), têm alimentação balanceada, evitam gorduras, fazem ginástica todos os dias da semana.

Homens e mulheres perfeitos assistem aos bons filmes, aos bons programas de tv, viajam aos finais de semana para locais ecologicamente aprovados.

Homens e mulheres perfeitos nuncam gritam, nunca se exaltam, nunca atrasam o pagamento de uma conta, nunca tiveram um amigo suicida.

Homens e mulheres perfeitos fumam maconha em doses adequadas, bebem cerveja às vezes e muito vinho sempre. Nunca atrasaram a entrega do Imposto de Renda e nunca pensaram em bater no vizinho chato.

Homens e mulheres perfeitos nunca vão precisar se matar: já nasceram mortos.



Escrito por Rodolfo às 18h32
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Falar de Susan Boyle????

Todo mundo fala de Susan Boyle. Mais de 100.000.000 de acessos no youtube em duas semanas.

O que pode significar isso?

Em primeiro lugar, a internet gera um fenômeno mundial! Nunca antes na história do mundo (como diria nosso presidente) alguém tinha se tornado mundialmente famoso através principalmente da internet. O programa de tv fez a sua parte, cinco minutos num show de calouros cheio de freaks e afetações. Mas a internet globalizou esses cinco minutos e em questão de dias, ela se tornou conhecida em todos os continentes...Elaine Page, a cantora que ela admira e que tem uma carreira sólida e reconhecida há mais de 30 anos na Inglaterra se tornou simplesmente um adendo à história dela. Elaine Page era o que ela queria ser, mas ela se tornou maior do que Elaine Page...ela se tornou a Elaine Page globalizada pela net.

E por quê tanto sucesso? Não existem outras cantoras com vozes tão bonitas, tão afinadas quanto a dela? Sim, existem. Existem milhares...e muitas estão nos musicais da Broadway, nos castings pelo Brasil afora, tentando lançar seus discos mundo afora.

Mas a diferença, aquilo que fez dela o fenômeno mundial, é justamente o que ela tem que as outras eliminaram de suas vidas: as sobrancelhas grossas, a cara feia, o jeito caipira, o sotaque fácil de ridicularizar, a vida sexual absolutamente desprezível, a vida amorosa banal. Nenhuma das outras vozes maravilhosas que correm atrás do sucesso deixou de fazer dietas, aplicações de botox, plásticas, cabeleireiros, esteira, pilates, alimentação orgânica, vida amorosa atribulada...Enquanto as outras vozes maravilhosas corriam atrás do estereótipo de como fazer sucesso, ela cuidava da voz, da mãe e do gato...

É porisso que todos se apaixonaram por ela. Naqueles cinco minutos que parecem saídos de um perfeito roteiro melodramático de Hollywood, piegas e digno da sessão da tarde, se escondia um desejo secreto de milhões e milhões de pessoas em todo o mundo: o desejo de que a mídia, a tv, o cinema, não trabalhassem apenas com os clichês do vendável "loira gostosa boazuda com voz linda". No fundo, no fundo, Susan Boyle tirou um peso das nossas costas. Sim, o mundo tem mulheres caipiras, honestas, banais que podem cantar lindamente e nos emocionar. Sim, o sucesso pode vir não apenas para aqueles que se encaixam nas embalagens da indústria cultural. Susan Boyle, a mulher que não pode ser vendida como sabão em pó, pelo menos por enquanto, nos causa espanto.

Até que ponto ela vai sobreviver? Até que ponto os produtores vão explorar esse produto altamente rentável e recém descoberto? Até quando o "mercado" vai conseguir vendê-la? Até que ponto ela continuará a ser fiel aos seus vestidinhos bregas, seu cabelo deplorável, seu sotaque incompreensível? Ou será que isso fará parte da estratégia de marketing para a nova embalagem do sabão em pó "Boyle"? Até que ponto ela conseguirá ser fiel a si mesma? 

 



Escrito por Rodolfo às 09h09
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Justine

Justine é:

A Família que não é familiar.

A Justiça que não é justa.

O Amor que não ama.

A Empresa que não empreende.

O Deus que não é divino.

O Poder que não permite ao Outro poder.

A dor que não para de doer.



Escrito por Rodolfo às 12h57
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Quatro dias

Já se passaram 4 dias.

E tudo começa a ter um novo sentido.



Escrito por Rodolfo às 12h00
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